04 de julho de 2026
OPINIÃO

Padre pai


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Mal começou o mês de junho, mês dedicado, na Igreja Católica, ao Coração de Jesus, exatamente no dia quatro, Festa de Corpus Christi, os anjos vieram buscar o para sempre querido Padre Pai José Brombal.

De imediato, pensei no seu amor pelo Coração de Jesus, a folhinha com que presenteava os mais próximos e, tantas vezes, em seu bolso, uma frase dela que o iluminava e partilhava com os que encontrava. Os tesouros todos seus não ficavam guardados, abria-os para que as pessoas encontrassem um sentido maior para sua vida. E quantos anos de direção espiritual no Apostolado da Oração, que se dedica à devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Encantava-se em poder encontrar as devotas com sua fita vermelha, sinal de amor e prece.

Aproximei-me mais dele a partir da Pastoral da Mulher/Magdala. Final da década de 1980. Dávamos, de certa forma, os primeiros passos. Nos três primeiros anos, o encontro com as mulheres era na Praça Marechal Floriano Peixoto e visitávamos alguns bares. No momento certo, Dom Roberto Pinarello de Almeida, Bispo Diocesasno, responsável pela implantação do trabalho, escancarou-nos a porta da Catedral, dizendo que elas precisavam perceber que, aos olhos do Senhor, eram muito amadas por Pedro e seus sucessores. Padre Pai possuía o mesmo olhar do Bispo que o ordenou. Convidou-nos para apresentar o trabalho na Igreja Nossa Senhor da Conceição, na Vila Arens, estando presente uma das integrantes que contou sua história de vida e o impacto em estar na Igreja e conhecer Jesus Cristo. A partir desse dia, aproximou-se cada vez mais da Pastoral e se tornou, por longos anos, nosso assessor espiritual. Além de partilhar seu Sacerdócio e sua sabedoria, fez-se de paternidade para inúmeras mulheres que não conheceram o pai. Aliviou feridas de ausência.

Sempre me chamou a atenção como ele valorizava todos os seres humanos, sem questionar suas histórias: as mulheres que cumpriam seus compromissos na Igreja, no Apostolado da Oração, e as que foram empurradas para as margens. Recordo-me também de quando muitos moradores de rua, que ficavam próximos à Igreja do Rosário – São Benedito – Santuário Eucarístico, aos sábados, recebiam dele uma nota de dois reais, com o propósito de lhes fazer um agrado seguido da palavra “giudizio”. Ou seja, era reflexão, anúncio, ação e abraço a inúmeros que ainda buscavam pelo menos uma chama. Não quebrava a cana rachada e nem apagava o pavio que ainda fumegava. Ou seja, era realmente todo de Deus. Li, um dia desses, que Deus não age por impulso. Ao escolhê-lo como marido, pai, avô, bisavô e Sacerdote, sabia a quem escolhera para impactar o mundo com o bem.

Tornar-se Sacerdote não tirou dele o amor por sua Olinda, pelos 12 filhos, 23 netos e nove  bisnetos. Dois dos filhos foram antes dele, vi-o, embora com o coração sangrando, proclamar a Eternidade em tempo de despedida e luto. Amava a vida e os limites físicos dos quase 99 anos de idade, jamais ousaram lhe convidar a desistir.

Atestava que uma vida sem amor é uma vida atrofiada. Além do carinho que ofereceu a mamãe e a mim, ensinou-me muito e foi parceiro indispensável na aproximação com excluídas e excluídos. Gratidão. Deus me concedeu a graça de conhecê-lo.
De coração com Jesus para o encontro definitivo com Ele.

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista