09 de julho de 2026
OPINIÃO

A floresta perdeu espaço para o feed


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É difícil precisar quando nos distanciamos visceralmente da natureza. Mas é fácil avaliar, nos dias de hoje, o quanto estamos longe dela. Basta observar o comportamento das crianças. Muitas delas conseguem identificar dezenas de influenciadores digitais, personagens de redes sociais e celebridades da internet, mas não reconhecem a árvore próxima que lhes oferece sombra e frutos. Mais agravante, sequer imaginam a origem do leite que bebem... “Vem da caixinha que está na geladeira”, disse a sobrinha de 9 anos de um amigo.

A paulatina mudança de hábitos culturais expõe uma ruptura silenciosa entre as novas gerações e o mundo natural. A humanidade jamais esteve tão conectada digitalmente e, paradoxalmente, tão distante dos processos que sustentam a própria vida. O conhecimento sobre a natureza, que durante séculos foi transmitido de geração em geração, perdeu espaço para conteúdos instantâneos, produzidos intencionalmente para captar a atenção em segundos.

O problema não está nos influenciadores digitais. Eles são parte da nova realidade comunicacional. A questão surge quando o universo virtual passa a ocupar quase integralmente o repertório infantil, substituindo experiências concretas e fundamentais para o desenvolvimento humano.

Diversos estudos na área da psicologia ambiental demonstram que o contato frequente com a natureza favorece a concentração, reduz níveis de ansiedade, fortalece a criatividade e contribui para a construção da inteligência emocional. Crianças que convivem com ambientes naturais desenvolvem maior capacidade de observação, senso de pertencimento e compreensão dos ciclos da vida.

A educação ambiental, portanto, não pode ser compreendida como uma simples disciplina escolar ou um conjunto de recomendações sobre reciclagem. Trata-se de uma formação cultural que ajuda a criança a entender quem ela é dentro de um sistema maior, onde seres humanos, animais, plantas, rios e florestas estão interligados e conectados.

Ninguém protege aquilo que não conhece. E dificilmente alguém valoriza aquilo com que nunca estabeleceu vínculo.

O geógrafo brasileiro Aziz Ab'Sáber costumava defender a importância de compreender a paisagem como resultado da interação entre natureza e sociedade. Não é possível formar cidadãos conscientes sobre questões climáticas, preservação de recursos hídricos ou biodiversidade sem que exista uma relação afetiva prévia com o ambiente.

A educação ambiental também desempenha um papel decisivo na construção da cidadania. Em um mundo marcado por mudanças climáticas, eventos extremos, escassez hídrica e perda acelerada da biodiversidade, formar crianças capazes de compreender e de se integrar aos sistemas naturais tornou-se uma necessidade estratégica. Não se trata apenas de preservar florestas ou espécies ameaçadas, mas de garantir condições de vida para as próximas gerações.

Rosângela Portela é jornalista, consultora e mentora em comunicação