02 de julho de 2026
OPINIÃO

A poeta e a geografia


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“A nossa vida é como um vestido que não cresceu conosco”, diz o verso da poeta. A autora chama-se Sophia de Mello Breyner Andresen, uma senhora portuguesa que há décadas encanta o mundo com sua poesia recheada de imagens insólitas. Seus versos celebram o amor, a saudade, a memória, a luta cotidiana, a justiça, a liberdade e a própria poesia. De sua obra numerosa, redigida entre as décadas de 1930 e 2000, há um livreto precioso chamado “Geografia”. Publicado em 1967, tem pouco mais de 70 páginas (no Brasil, há uma edição atualizada da Companhia das Letras que reúne os livros “Geografia” e “O Cristo cigano” – este último publicado em 1961).

“O vazio desenhava desde sempre a forma do teu rosto/Todas as coisas serviram para nos ensinar/A ardente perfeição de tua ausência”, dizem os versos do capítulo “Dual”, do livro “Geografia”. O volume traz sete capítulos e os versos encantam pelo lirismo singelo e pessoal da autora. Dona Sophia fala de paisagens portuguesas, de cenários do Mediterrâneo, de colegas de ofício, como o espanhol Federico Garcia Lorca (1898/1936), morto pela repressão franquista na Guerra Civil da Espanha: “Por ti choramos os outros mortos todos/Os que foram fuzilados em vigílias sem data (...)/Choramos sem consolação aqueles que sucumbem/Entre os cornos da raiva sob o peso da força”.

Sophia tornou-se amiga do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto. Encontraram-se em Sevilha, na época em que João Cabral servia como cônsul na cidade espanhola. São dois poetas dos substantivos concretos, da poesia extraída da tocável, visível, por vezes áspera, mas não menos lírica da realidade. Em “Geografia”, há mais de uma referência ao Brasil. A autora impressiona-se, por exemplo, com Brasília, a cidade plantada no semideserto do Centro-Oeste: “Brasília (...) grega e brasileira/Ecumênica/Propondo aos homens de todas as raças/A essência universal das formas justas”. Celebra também o mestre Manuel Bandeira: “Este poeta está/Do outro lado do mar/Mas reconheço a sua voz há muitos anos/E digo ao silêncio os seus versos devagar”. Ou ainda a língua portuguesa falada em nosso país: “Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas/Sem perder sequer um quinto de vogal”.  

Nascida no Porto, em Portugal, em 1919, Sophia veio de uma família aristocrática. Estudou Filologia Clássica na Universidade de Lisboa, mas não concluiu o curso. Foi voz ativa contra a ditadura de Oliveira Salazar. Católica, assinou na década de 1950 manifesto em que apontava a cumplicidade da ala conservadora da igreja do Vaticano com o regime salazarista. O Estado Novo do ditador Salazar sufocou Portugal entre 1933 e 1974. Com a Revolução dos Cravos, em 1974, e o retorno da democracia, Sophia foi eleita deputada constituinte. Em 1999 ganhou o Prêmio Camões, o mais prestigiado para autores da língua portuguesa. Em 2003, levou o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana. A poeta morreu em 2004.

Fernando Bandini é professor de Literatura