07 de junho de 2026
BLOCO REGIONAL

Cidades da RMJ reagem à lacuna de 12 anos sem deputados

Por Alan Cavalieri |
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Divulgação
Há 12 anos sem deputados, RMJ tenta recuperar espaço político na Alesp e em Brasília 

Com cerca de 632 mil eleitores e tendo Jundiaí como detentora do oitavo maior Produto Interno Bruto (PIB) do Estado de São Paulo, a Região Metropolitana (RMJ) convive com um paradoxo político: há 12 anos não elege deputados estaduais ou federais próprios. Diante desse cenário, a eleição de representantes para o bloco regional tornou-se uma das principais pautas da RMJ para 2026, em um movimento que ultrapassa as legendas partidárias para reverter o quadro. No debate sobre as causas da falta de representatividade, especialista aponta a reforma política como uma das alternativas para reduzir a dispersão de votos e fortalecer candidaturas regionais.

O levantamento do JJ junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre as últimas eleições gerais (2022), realizado com base nos três candidatos mais votados em cada município da RMJ, mostra que ao menos 63,9 mil votos foram destinados a candidatos de fora da região para deputado federal. Na disputa para deputado estadual, o mesmo recorte aponta outros 29,5 mil votos direcionados a nomes com atuação política em diferentes partes do Estado.

Esses números poderiam ser suficientes para complementar os votos dos candidatos mais votados em Jundiaí nas disputas para deputado federal e estadual em 2022, por exemplo. No pleito, Fred Machado (PSDB), que fez campanha defendendo a representatividade regional na época, recebeu 43.893 votos para deputado federal, mas não se elegeu. Já Faouaz Taha (PSD) obteve 38.476 votos na disputa para deputado estadual, resultado que também não foi suficiente para garantir uma cadeira. Neste ano, o vereador é apontado como possível candidato estadual para o pleito em 2026.

Nas últimas eleições gerais,  parte significativa dos votos foi destinada a candidatos com bases eleitorais fora da RMJ. Na disputa para deputado federal, o mais votado entre os municípios analisados foi Ricardo Salles (PL), que somou 25.496 votos em Jundiaí, Várzea Paulista, Jarinu, Cabreúva, Itupeva e Louveira. Em seguida aparecem Carla Zambelli (PL), com 19.717 votos, e Eduardo Bolsonaro (PL), com 13.659 votos. Em Campo Limpo Paulista, o candidato mais votado foi Kiko Celeguim (PT), com 3.091 votos, seguido por Celso Russomanno (Republicanos), com 1.977.

Na disputa para deputado estadual, a fragmentação dos votos foi ainda mais evidente. O candidato com maior votação entre os municípios analisados foi Eduardo Suplicy (PT), que somou 10.707 votos em Jundiaí, Várzea Paulista, Campo Limpo Paulista, Cabreúva, Itupeva e Louveira. Em seguida aparecem Gilmaci Santos (Republicanos), com 4.723 votos, e Rodrigo Moraes (PL), com 4.386 votos, concentrados em Cabreúva. Também figuram entre os mais votados nomes como Bruno Zambelli (PL), Edmir Chedid (União Brasil), Rafa Zimbaldi (Cidadania), Rogério Nogueira (PSDB) e Carmelo Morando (PSDB). Assim como ocorreu na disputa federal, os votos da RMJ ficaram distribuídos entre candidatos de diferentes regiões do Estado, dificultando a formação de uma candidatura regional competitiva.

Para o cientista social André Ramos, a dispersão dos votos na RMJ é resultado de diferentes fatores. Segundo ele, a polarização nacional influencia parte das escolhas do eleitorado. “A dispersão sempre foi fruto da disputa marcada pela polarização nacional entre direita e esquerda, sobretudo no Estado de São Paulo. O Brasil também sempre teve uma fragmentação partidária muito grande”, afirmou.

Ramos avalia, porém, que o comportamento do eleitor nem sempre está ligado apenas à ideologia. “A referência de prefeitos e gestores vinculados a determinado partido acaba criando a percepção de que aquela legenda resolve mais os problemas da população”, disse. Para ele, esse fator contribui para um voto mais pragmático, baseado na avaliação de resultados e lideranças políticas.

O presidente do Parlamento Regional da RMJ, Daniel Bueno, criticou a pulverização de candidaturas na região. “Cidades como Jundiaí têm um poderio de votos muito grande e se criam três ou quatro candidatos para uma eleição. Isso dificulta a concentração dos votos da região”, afirmou. Para ele, “os votos deveriam ser concentrados e o trabalho feito em unidade”. Bueno também avaliou que a ausência de representantes próprios prejudica a articulação por recursos e investimentos. Segundo ele, os municípios menores acabam sendo os mais impactados.

Há menos de dois meses na presidência do Parlamento Regional, Bueno destacou que a principal pauta do bloco é justamente fortalecer a representatividade política da região. Segundo ele, a atual gestão dará continuidade ao trabalho desenvolvido pelo ex-presidente Edicarlos Vieira (União), mantendo pautas como a ampliação de vagas no ensino noturno, a integração do transporte intermunicipal e a defesa de projetos estruturantes. “A ideia é dar seguimento ao trabalho realizado nos últimos anos e avançar em pautas como o hospital regional, que beneficiaria toda a região metropolitana”, disse.

Vieira relembrou agendas realizadas em Brasília e afirmou ter enfrentado dificuldades para obtenção de recursos e apoio para pautas da região. “Nós perdemos mais de R$ 500 milhões em investimentos para Jundiaí e região metropolitana por falta de deputados estaduais e federais”, declarou. Segundo ele, temas como mobilidade, transporte público e repasses para projetos regionais acabam enfrentando obstáculos pela ausência de representantes diretamente ligados à RMJ. “Passamos vergonha por não termos deputados para ajudar a trazer de volta parte dos recursos e impostos que a região envia para Brasília”, afirmou.

Voto distrital é apontado como alternativa

Último deputado federal eleito com base política na região em 2014, Miguel Haddad, avalia que a falta de representatividade da RMJ está ligada, em parte, ao sistema eleitoral brasileiro. Segundo ele, a ausência do voto distrital ou distrital misto contribui para a dispersão dos votos e dificulta a eleição de representantes regionais.

Haddad defende que uma reforma eleitoral com a adoção do voto distrital ou distrital ampliaria a representatividade regional. Segundo ele, o modelo permitiria manter tanto a escolha de representantes por distrito quanto a votação em candidatos, conciliando a representação territorial e temática.

Para o ex-deputado, o atual sistema naturalmente faz com que algumas regiões tenham dificuldade para eleger representantes próprios. “Se o sistema eleitoral tivesse o voto distrital, não estaríamos fazendo essa discussão, pois todas as regiões teriam representatividade”, afirmou. Na avaliação de Haddad, o modelo fortaleceria a identificação do eleitor com seus representantes e aproximaria a atuação parlamentar das demandas locais.

Para o ex-deputado, é importante ter representantes que conhecem de perto as demandas locais e conseguem articular soluções junto às diferentes esferas de governo. “Um deputado de Jundiaí conhece a realidade da região. É extremamente saudável que tenhamos representantes vinculados ao território”, afirmou.