As notícias sobre a venda de obras de Tarsila do Amaral no mercado internacional neste mês de junho de 2026 voltam a colocar a artista brasileira no centro das atenções. Na SP Arte, havia três obras à venda em três galerias. Foi, novamente, uma das obras mais caras do evento ! Agora, 2 meses depois, as mesmas desembarcam em Paris ofertadas para colecionadores milionários europeus, pelo preço oferecido de 25 milhões de dólares, como no caso da obra “Manacá”.
Tarsila, que mereceu diversos artigos desta coluna, continua em evidência, seja por disputas judiciais pelo controle dos direitos autorais da artista seja pela valorização e reconhecimento de sua obra no cenário internacional.
Ela nasceu em 1886, em Capivari, e cresceu em meio ao universo das fazendas que transformaram a economia paulista no final do século XIX e início do século XX. Teve boa parte de sua vida em terras de Jundiaí, pois tinha lastro e latifúndios com cana, café e gado em 22 fazendas.
Algumas célebres como a Fazenda Sertão, sede da família, localizada próximo de Indaiatuba, e outras fazendas que foram sendo agregadas, como Santa Maria e Santa Teresa do Alto, que posteriormente vem a ser sua com Oswald de Andrade que escreve ali seus livros, como o mais conhecido dessa época o “Manifesto Pau Brasil”. A antropofagia, passa a ser um símbolo da ruptura com os movimentos da época, e a ter como base o “Abaporu”, obra de Tarsila foi adquirida em 1995 por Eduardo Constantini para seu Museu de Arte Latino Americano de Buenos Aires.
Agora, em Paris, o preço de sua obra tem em comparação os números das fazendas de seu avô, José Estanislau do Amaral, cujo apelido nas fazendas era “milionário”. Essa paisagem caipira, que supera qualquer preço estimado, tem origem nas pedras, cactos, palmeiras e bichos dessas fazendas e são fotográficos, os lugares com as pedras em equilíbrio estranho, que parecem que vão cair. Não sao surrealistas, a paisagem está lá, com as mesmas pedras, cactos, palmeiras e bichos que Tarsila pintou.
As torres de transmissão são inspiradoras para suas obras de características urbanas. Mesmo a torre Eiffel que fez em “Carnaval em Madureira” de 1924, pode ter origem nessas torres de sua fazenda e sem esquecer de Blaise Cendrars que se hospedou na fazenda de infância da Tarsila na região de Capivari, Limeira e que via no céu constelações em formato da Torre Eiffel, o que o inspirou a escrever o livro “Torre Eiffel Sideral” publicado mais tarde em 1949.
A partir de 1929, Tarsila perde todo o seu patrimônio, Oswald de Andrade, já não está mais com ela. A família perde suas propriedades e Tarsila se emprega como conservadora da Pinacoteca do Estado de São Paulo para conseguir se sustentar. Mas permanece por pouco tempo, pois com a revolução de 30, perde seu cargo e viaja para União Soviética. Ao retomar, em 1932, é presa por suspeita de ligação com a revolução comunista.
Eduardo Carlos Pereira é arquiteto e urbanista