07 de junho de 2026
OPINIÃO

Como anda nosso lixo?


| Tempo de leitura: 3 min

Depois do desmatamento, obra do bicho-homem, eficiente fabricante de desertos e da escassez hídrica, ora chegando ao colapso, o lixo é um dos inimigos da vida saudável.

Todas as cidades produzem muito lixo, que a legislação passou a chamar de resíduos sólidos, porque há valor econômico neles. Prolíficos em normatização, já temos leis sobre economia circular e logística reversa. Mas, como estamos na República da hermenêutica, em que há leis que pegam e leis que não pegam, essa é uma das que não pegaram.

Ainda temos lixões no Brasil, embora também contemos com o Marco Legal do Saneamento Básico. E também acumulamos nosso desperdício em camadas malcheirosas e nocivas de lixo acumulado. Os “aterros sanitários”, que não constituem solução, mas paliativo deficiente, dispendioso, feio e antiecológico.

Dentro do desperdício, o setor de vestuário é um dos mais poluentes em emissões de gás carbônico. O alerta é do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o PNUMA. Quase cem milhões de toneladas de resíduos têxteis são descartados e como o descarte só cresce, a projeção para os próximos anos é que essa indesejável soma chegue a 140 milhões de toneladas, o que representa aumento de 60% na emissão de gases venenosos, causadores do efeito estufa.

Isso agrava a questão daquilo que é produzido pelo aquecimento global: as mudanças climáticas. Eram assim chamadas há algumas décadas. Depois, começamos a chamar de emergências climáticas e hoje fala-se já em cataclismo climático. É preciso um basta e uma consciência de toda a sociedade humana, para o enfrentamento dessa questão para a qual as indústrias têxteis devem ser responsabilizadas. Elas estão entre as mais poluentes do globo e mais de 10% de todas as emissões são geradas por elas. Para o mar, isso é pior: chega a 20% a poluição aquática por resíduos industriais.

O adequado é realizar descarte correto dos resíduos têxteis, para que possam passar por reciclagem. Em 2018, Mayumi Ishikawa, mulher consciente e ética, resolveu criar a Momo Ambiental, especializada em sustentabilidade têxtil. Ela coleta toneladas de materiais e 100% deles são reaproveitados. São transformados em novos produtos sustentáveis, como desfilibrado têxtil para enchimentos e uso geotêxtil, eco malhas, pano ecológico para limpeza, embalagens ecológicas, cabides, jogos de escumadeira e artesanato. Enfim, a Momo é um ecossistema de possibilidades na recuperação e destinação de resíduos têxteis. A questão é ambiental, pois libera boa quantidade do material desperdiçado, mas é também social. Propicia empregos verdes para pessoas que podem vir a ser igualmente descartados, por força da automação da indústria, obra da IA – Inteligência Artificial Generativa.

Toda a pessoa consciente e lúcida deveria se preocupar com essa questão que nos afeta a todos, mas também ameaça de impedir a continuidade da aventura humana sobre um planeta que já está cansado de maus tratos e agora tem a palavra. E a natureza fala como pode: chuvas inclementes, seguidas de secas de flagelo. Vendavais, temporais, ciclones, com perdas materiais e, infelizmente, muitas mortes.

Cuidar do que se consome e se desperdiça é uma questão de educação e de sobrevivência. Somos responsáveis por aquilo que consumimos, desperdiçamos e descartamos. Não existe “jogar fora”, como disse o ecológico e saudoso Papa Francisco, na Encíclica “Laudato Si”. Tudo fica aqui mesmo, neste único frágil planeta, derradeira e exclusiva possibilidade de manutenção da vida para o homem e demais animais.

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo