06 de junho de 2026
OPINIÃO

Glúteos fortes: investimento em saúde e longevidade


| Tempo de leitura: 3 min

Quando pensamos em glúteos, a primeira associação costuma ser estética. Mas a verdade é que um dos maiores benefícios de ter glúteos fortes está muito além da aparência. Está na saúde da coluna, na qualidade do movimento e na capacidade de envelhecer com autonomia e independência.

A partir dos 30 anos começamos a perder massa muscular de forma gradual. Com o passar das décadas, essa perda tende a se acelerar, reduzindo força, equilíbrio, mobilidade e capacidade funcional. Esse processo, conhecido como sarcopenia, está diretamente relacionado ao aumento do risco de quedas, lesões, dores musculoesqueléticas e perda de independência.

Por isso, o treinamento de força vem sendo considerado uma das estratégias mais importantes para a promoção da saúde e da longevidade. Não se trata apenas de estética ou desempenho esportivo. Trata-se de preservar a capacidade de continuar fazendo aquilo que gostamos, mantendo a liberdade de movimento ao longo dos anos.

Dentro desse contexto, os glúteos merecem atenção especial.

O glúteo máximo é o maior músculo do corpo humano e participa de praticamente todos os movimentos do dia a dia. Caminhar, correr, subir escadas, levantar de uma cadeira, carregar objetos e até manter uma boa postura dependem, em maior ou menor grau, da ação dessa musculatura.

Mas os glúteos não trabalham sozinhos. Eles fazem parte de um sistema integrado que conecta quadril, pelve, coluna vertebral, tronco e ombros.

Na minha prática profissional, é muito comum encontrar pessoas com dores lombares recorrentes, desconfortos na região do quadril ou sensação de instabilidade pélvica que apresentam glúteos enfraquecidos ou pouco funcionais. Quando essa musculatura não consegue absorver e distribuir adequadamente as forças produzidas pelo movimento, outras estruturas acabam sendo sobrecarregadas.

A articulação sacroilíaca, localizada entre o sacro e os ossos da pelve, funciona como uma verdadeira ponte de transmissão de forças entre as pernas e a coluna vertebral. Glúteos fortes ajudam a estabilizar essa região, favorecendo uma melhor distribuição das cargas e reduzindo o estresse sobre a coluna lombar.

Sob a perspectiva da biomecânica moderna e das cadeias fasciais, essa relação se torna ainda mais interessante. Existe uma importante conexão entre o glúteo de um lado do corpo e  o ombro oposto através da fáscia toracolombar. Durante a caminhada, por exemplo, o glúteo direito trabalha em sinergia com músculos do tronco e do ombro esquerdo, formando um sistema eficiente de transmissão de forças que contribui para a estabilidade da coluna e para a qualidade do movimento.

Isso significa que fortalecer os glúteos não beneficia apenas o quadril. Influencia também a estabilidade do tronco, a postura, a eficiência da marcha e até o funcionamento de regiões aparentemente distantes, como os ombros.

Além disso, hoje sabemos que o músculo é muito mais do que um tecido responsável pelo movimento. Ele atua como um importante órgão metabólico, produzindo substâncias chamadas mioquinas, que exercem efeitos positivos sobre o cérebro, o sistema imunológico, o metabolismo e diversos mecanismos relacionados ao envelhecimento saudável.

A boa notícia é que desenvolver força nos glúteos não exige exercícios complexos. Movimentos como agachamentos, avanços, elevação pélvica, subida de degraus, levantamento terra e diversas estratégias utilizadas na musculação e no treinamento funcional podem trazer excelentes resultados.

Mas existe um detalhe fundamental: não basta apenas fortalecer, é preciso fortalecer da forma correta. Cada pessoa possui características, limitações e necessidades diferentes. Por isso, a orientação de um profissional qualificado do movimento é essencial para avaliar, corrigir padrões inadequados e prescrever exercícios de forma segura e eficiente.

Talvez a pergunta mais importante não seja apenas quanto tempo queremos viver, mas como queremos viver. E um dos caminhos mais inteligentes para preservar a saúde da coluna, a estabilidade do quadril, a qualidade do movimento e a independência funcional ao longo dos anos começa com algo simples: manter o corpo forte. E isso inclui, sem dúvida, cuidar muito bem dos seus glúteos. Muita saúde a todos.

Liciana Rossi é profissional de Educação Física, especialista em coluna e treinamento corretivo, palestrante e pioneira do método ELDOA no Brasil