Eles estão na palma da mão, dentro dos quartos e, muitas vezes, presentes em quase todos os momentos da rotina. Celulares, tablets e jogos online se tornaram parte do cotidiano de crianças cada vez mais novas, trazendo praticidade, entretenimento e acesso à informação. Em meio a esse cenário, pais e educadores enfrentam o desafio de ensinar as crianças a equilibrar os benefícios da tecnologia, sem transformar a conexão digital em dependência.
Uma pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico mapeou o consumo digital de nove países, entre eles o Brasil. De acordo com o estudo, metade das crianças brasileiras com menos de cinco anos usa dispositivos eletrônicos diariamente, número próximo da média dos nove países pesquisados, que é de 46%.
Para Paulo Junqueira, médico especialista em neurologia infantil, a exposição precoce é ainda mais arriscada. “Esse comportamento nos primeiros anos priva as crianças da necessária exploração sensorial tridimensional e pode afetar negativamente sua regulação comportamental e emocional. As crianças processam os estímulos digitais por meio de um sistema incompleto que se sobrecarrega facilmente e, por isso, perdem a capacidade de atenção, controle cognitivo e desenvolvimento da linguagem.”
Ainda segundo o doutor, o vício se tornou mais comum devido à própria configuração dos aplicativos e jogos. “Eles são desenhados para usar o sistema de recompensa do nosso cérebro. Quando uma criança passa de fase em um videogame, por exemplo, esse sistema é ativado e libera dopamina, neurotransmissor que causa sensação de prazer, satisfação e reforço positivo.”
Em uma tentativa de reverter os mecanismos dos aplicativos que causam essa dependência, o deputado Gilberto Abramo (Republicanos) propôs, em março, o Projeto de Lei 687/2026, que estabelece novas regras para proteger crianças e adolescentes no ambiente digital. A proposta, que segue em tramitação na Câmara dos Deputados, aguardando análise das comissões responsáveis, altera o chamado “ECA Digital” e prevê medidas para reduzir mecanismos que incentivam o uso excessivo de plataformas por menores de idade.
Paulo, porém, entende que o lado social também pesa. “Os aplicativos online se tornaram a principal forma de socialização. Se eles se desconectam, sentem um isolamento social imediato. No cenário atual, não participar desses jogos pode significar sofrer exclusão por parte dos amigos da escola.”
Por isso, o combate ao vício deve ser um esforço coletivo entre pais e educadores. Lígia Carla de Souza é diretora da escola Novos Caminhos, que oferece aulas de Tecnologia para alunos do 1º ao 9º ano. Durante as aulas, são abordados temas como o tempo de tela, o uso consciente das mídias digitais e a importância de construir uma relação mais saudável, segura e responsável com a tecnologia.
A diretora Lígia Carla de Souza defende a educação digital
Segundo Lígia, a proposta é refletir sobre o impacto dos recursos digitais no cotidiano. “Trazer essa discussão para a grade curricular é uma forma inovadora e cuidadosa de preparar nossos alunos para o presente e para o futuro, ajudando-os a compreender que o digital deve ser usado com consciência, equilíbrio e propósito.”
Além disso, os pais devem servir de exemplo para os filhos. Valéria Campos, esteticista autônoma, tem três filhos: Lívia, de 16 anos, Igor, de 9 anos, e Lavínia, de 2 anos. Mesmo imersos na era digital, Valéria garante que os filhos utilizam as telas moderadamente, graças ao aplicativo de controle parental. “Estamos sempre monitorando o consumo deles e limitamos o tempo de tela durante a semana. Nos fins de semana, quando o tempo de tela é livre, se notamos algum tipo de isolamento, bloqueamos os aparelhos.”
Mãe de três filhos, Valéria Campos utiliza ferramentas de controle parental
Valéria explica que, dessa forma, conseguem garantir que as crianças ainda mantenham o convívio familiar e não atrapalhem a própria rotina, principalmente a de demandas escolares. Mesmo assim, a esteticista percebe como a dependência das telas afeta o humor dos filhos. “Quando eles não podem mexer, ficam ansiosos, mal-humorados e chegam até a fazer birra. Com a adolescente de 16, percebo, inclusive, falta de interação presencial e dificuldade de dialogar fora dos aplicativos de mensagem.”
A mãe relata ainda um episódio que passou com o filho Igor. “Teve uma época que ele passou a ter acesso a vídeos de jogos, como Roblox, e começou a apresentar comportamentos e brincadeiras mais agressivas. Precisamos conversar com ele, orientar e bloquear os conteúdos.”
Para o médico Paulo Junqueira, tais comportamentos são reflexos do próprio sistema de uso dos aparelhos. “As telas oferecem uma recompensa muito rápida, baseada na liberação de dopamina. Isso vicia o cérebro e faz com que a criança se acostume com a gratificação instantânea. Consequentemente, vemos uma geração com péssima tolerância à frustração e muita irritabilidade, abrindo portas para quadros de ansiedade e sintomas depressivos.”
Ele explica que os pais precisam estar atentos ao momento em que o uso deixa de ser diversão e se torna uma necessidade incontrolável. “O impacto gera um prejuízo funcional grave, fazendo a rotina da casa e da escola desmoronar, o que resulta em queda no rendimento escolar e distúrbios de sono. Há também o descuido pessoal, como pular refeições ou negligenciar o banho para não sair do jogo, abandono de interações com amigos e familiares e falta de interesse em hobbies, esportes e brinquedos que antes gostava.”
Assim como Valéria faz, Paulo ressalta que os pais assumem um papel duplo: são guardiões e modelos. Segundo ele, não adianta simplesmente proibir tudo, pois a tecnologia faz parte da nossa realidade, por isso, “a função da família é criar um ambiente de equilíbrio, ensinando as crianças a usar a internet e os jogos de forma saudável”, conclui.