03 de junho de 2026
OPINIÃO

O Cheiro da Lenha


| Tempo de leitura: 3 min

Eu estava dentro do carro, dia desses, quando um cheiro entrou pela janela entreaberta. Um forno de pizza de um restaurante estava sendo alimentado com lenha. E um bafo quente, denso, inconfundível, era sentido por quem ali passava. Mas por uma fração de segundo eu não estava mais na rua, dentro do carro.

Estava em Chacas. Norte do Peru. Cordilheira dos Andes. Quase quatro mil metros de altura. Fui em 2013 acompanhando um amigo querido, homem de seis línguas, três diplomas, dois doutorados, e uma generosidade que não cabia nos títulos. Já era idoso quando fizemos essa viagem. A família dele, preocupada, me convidou para ir junto e lhe fazer companhia. Fui achando que seria eu a cuidar. A altitude e meus problemas respiratórios me mostraram o contrário.

Mas isso é outra história.

O vilarejo de Chacas tinha um silêncio particular, daquele que só existe quando o ar é rarefeito e as montanhas são grandes demais para deixar o barulho do mundo passar. As casas de adobe se confundiam com a encosta. Da janela do quarto onde fiquei, a Cordilheira inteira, como se o horizonte tivesse sido trocado por uma pintura. As mulheres locais, descendentes dos incas, andavam pela praça com seus chapéus característicos e as saias em camadas, uma sobre a outra - as polleras - com aquela dignidade de quem carrega séculos no corpo sem precisar anunciar.

E havia o cheiro de lenha no ar.
Todas as casas tinham seu fogão a lenha. Todas. Pequenas e grandes, as da praça e as da encosta. E cada chaminé soltava seu fio de fumaça para o azul impossível daquela altitude.

O vilarejo inteiro cheirava igual — seco, quente, antigo. Um cheiro que o corpo reconhece como lar, mesmo quando você nunca esteve ali antes. Cheiro de história. Do terraço, eu olhava as casinhas espalhadas pela encosta e via, em cada telhado, uma chaminé. E em cada chaminé, a mesma fumaça fina subindo devagar.

Depois de alguns dias, o corpo esqueceu que havia cheiro. É o que acontece — a gente se acostuma, e o que era intenso vira paisagem, vira ar. Só percebe que estava lá quando some.

A obra que Alessandro queria conhecer era comandada pelo Padre Hugo. Italianos e peruanos trabalhando juntos, desenvolvendo a região com cuidado e respeito — uma daquelas iniciativas raras que ajudam sem apagar o que já existe.

Chacas tinha esse espírito. Delicada na praça, selvagem na montanha. Espanhola no traço de sua plaza de armas, profundamente andina na alma.
E sempre, em tudo, o cheiro da lenha.

E anos depois, dentro de um carro, o cheiro entrou pela janela e me levou de volta.
Não lembrei de Chacas. Fui a Chacas.

É curioso o que o olfato faz. Não avisa, não pede licença. Enquanto a visão guarda imagens que você consulta quando quer, o cheiro te sequestra. Te deposita num lugar e num tempo que você pensava guardado.

E por um segundo, eu estava lá de novo — no terraço, olhando as chaminés, sentindo o frio que morde diferente quando o ar é fino, ao lado de um amigo que partiu, num lugar que nunca esqueci.

Samuel Vidilli é cientista social e na coluna desta semana resolveu divagar