31 de maio de 2026
OPINIÃO

O que a IA ainda não sabe sentir


| Tempo de leitura: 4 min

Em uma conversa recente com Chris Torto, fundador da Ascenty, uma das maiores empresas de data centers da América Latina, falávamos sobre inteligência artificial, infraestrutura digital e futuro do trabalho quando surgiu a pergunta que hoje atravessa empresas, escolas, governos e famílias: afinal, a IA vai abolir empregos humanos? A resposta dele foi serena e objetiva. Não, ele não acredita nisso. E talvez seja justamente essa serenidade, vinda de alguém que ajudou a construir parte da infraestrutura sobre a qual essa nova economia digital se apoia, que nos obrigue a olhar para o tema com menos pânico e mais profundidade.

A inteligência artificial já escreve, calcula, organiza, traduz, programa, cruza dados, identifica padrões, simula cenários e responde em segundos a perguntas que antes exigiriam horas de pesquisa. Não há como negar que estamos diante de uma das maiores revoluções tecnológicas da história recente. Mas há uma diferença essencial entre executar tarefas e compreender a experiência humana. A IA pode reproduzir estilos, combinar repertórios, sugerir caminhos e acelerar processos, mas não possui memória afetiva, não conhece a ambiguidade moral de uma decisão difícil, não experimenta o medo, a esperança, a saudade, a culpa ou a beleza que atravessam a vida real e fazem com que uma escolha humana nunca seja apenas lógica.

Por isso, o futuro do trabalho não deveria ser tratado como uma guerra entre pessoas e máquinas, mas como uma transformação profunda na forma como produzimos, decidimos e criamos valor. A Organização Internacional do Trabalho já apontou que o efeito mais provável da inteligência artificial generativa será ampliar e transformar ocupações, mais do que simplesmente eliminá-las. O Fórum Econômico Mundial, no relatório “Future of Jobs 2025”, também indica que pensamento analítico, criatividade, resiliência, liderança, influência social, curiosidade e aprendizagem contínua estarão entre as habilidades mais importantes até 2030. Em outras palavras, quanto mais a tecnologia avança, mais estratégico se torna aquilo que é propriamente humano.

É evidente que empregos vão mudar. Algumas funções repetitivas desaparecerão, outras serão redesenhadas e muitas novas atividades surgirão em áreas que ainda estamos aprendendo a nomear. Foi assim em outras revoluções tecnológicas, mas agora a diferença está na velocidade e na escala. O desafio, portanto, não é alimentar o medo de que a máquina substituirá todas as pessoas, mas preparar trabalhadores, empresas e governos para uma realidade em que a tecnologia será parte inseparável da rotina profissional.

Quem souber usar a IA para ampliar sua capacidade de análise, comunicação, criação e gestão terá vantagem. Quem tentar competir com ela naquilo que ela faz melhor, como repetição, velocidade e processamento, provavelmente ficará para trás. A questão central é que nenhuma empresa cresce apenas porque acumula dados. Ela cresce quando alguém interpreta esses dados, compreende o contexto, percebe oportunidades, assume riscos, lidera equipes, negocia conflitos, entende clientes e toma decisões em ambientes imperfeitos. A inteligência artificial pode apoiar tudo isso, mas não substitui o olhar humano sobre a realidade. Ela pode indicar tendências, mas não carrega responsabilidade ética. Pode sugerir uma estratégia, mas não sente as consequências sociais de uma escolha. Pode produzir uma resposta correta, mas não necessariamente uma resposta justa, sensível ou sábia.

É nesse ponto que emoção e criatividade deixam de ser vistas como atributos acessórios e passam a ocupar o centro da discussão econômica. Durante muito tempo, o mundo corporativo tratou sensibilidade, empatia e imaginação como qualidades desejáveis, mas secundárias diante da técnica, da eficiência e da produtividade. A inteligência artificial inverte essa lógica. Se a máquina assume parte crescente das tarefas operacionais e analíticas, o diferencial humano passa a estar justamente na capacidade de conectar ideias, interpretar nuances, criar vínculos, formular perguntas melhores e enxergar sentidos onde os dados ainda não bastam.

Na educação, isso exige formar jovens menos treinados para decorar respostas e mais preparados para pensar criticamente, questionar, criar, colaborar e aprender continuamente. Nas empresas, exige investir em requalificação, reorganizar processos e valorizar profissionais capazes de unir domínio técnico com sensibilidade humana. No jornalismo, na saúde, na gestão pública, na indústria, no comércio e nos serviços, a pergunta será cada vez menos “o que a IA pode fazer por nós?” e cada vez mais “que tipo de humanidade queremos preservar enquanto usamos a IA?”.

O risco não está apenas na tecnologia, mas em uma sociedade que automatiza sem refletir, substitui sem requalificar, acelera sem compreender e confunde produtividade com ausência de pessoas. A inteligência artificial pode ser uma ferramenta extraordinária para ampliar conhecimento, reduzir desperdícios, melhorar decisões e liberar tempo humano para atividades mais complexas. Mas, se usada apenas como instrumento de corte, vigilância e desumanização, ela repetirá, em escala digital, velhas desigualdades que já conhecemos bem.

A conversa com Chris Torto me parece importante justamente porque desloca o debate do medo para a responsabilidade. A IA não abolirá a necessidade humana de criar, cuidar, liderar, imaginar e decidir. Emoção, criatividade, empatia, intuição e responsabilidade continuam sendo territórios humanos. Duvido que alguma máquina faça versos assim: “Leva-me contigo / Pode ser agora, a hora exata o acaso dirá / Além do sol poente, ou aquém, é indiferente / Desde que eu fique a salvo de mim / Leva-me pr’a longe, para longe do que eu sou.” (Antonio Zambujo)


Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ