28 de maio de 2026
MINIRREFORMA

Projeto que reduz controle de gasto de partidos marca retrocesso

Por Alan Cavalieri | Jornal de Jundiaí
| Tempo de leitura: 4 min
Agência Brasil / Divulgação
Impactos da minirreforma eleitoral aprovada na Câmara são polêmicos

Parlamentares da Câmara dos Deputados apreciaram na última semana (19) uma minirreforma que flexibiliza as regras de controle de gastos partidários, pagamento de multas e autorizou envio de mensagens em massa a eleitores. A medida tem repercutido entre líderes políticos da Região Metropolitana de Jundiaí.

O PL 4.822/2025 altera regras da legislação eleitoral e partidária ao flexibilizar a prestação de contas dos partidos, limitar multas por irregularidades em até R$ 30 mil, permitir parcelamento de dívidas partidárias em até 15 anos, impedir o bloqueio de recursos dos fundos Partidário e Eleitoral, reduzir prazos de análise das contas pela Justiça Eleitoral e autorizar envio automatizado de mensagens para eleitores cadastrados. Na prática, a proposta reduz mecanismos de fiscalização e punição sobre partidos políticos e amplia ferramentas digitais de campanha eleitoral.

O advogado da OAB Jundiaí na área eleitoral, Alceu Eder Massucato, criticou a condução da minirreforma aprovada com rápida votação simbólica e sem registro em painel. Segundo ele, o projeto amplia excessivamente as imunidades partidárias em meio a um cenário político de baixa discussão pública sobre o tema. 

Na avaliação de Massucato, o texto “representa um retrocesso” na fiscalização partidária e pode enfrentar questionamentos jurídicos. Segundo ele, a OAB Jundiaí repudia integralmente o projeto e pretende ampliar o debate público sobre a proposta. 

O cientista social André Ramos analisa que um “pacote de leis em discussão no período que antecede a eleição pode ser considerado estratégico e favorece a ampliação de um cenário obscuro em temas como a gestão econômica dos partidos”.

Entre os dirigentes partidários locais, a líder do Psol em Jundiaí, Cíntia Vanessa, criticou a possibilidade de utilização de recursos públicos para pagamento de multas partidárias e o parcelamento das dívidas a longo prazo. Segundo ela, “a proposta cria sensação de desigualdade entre população e partidos políticos”, e compara que “enquanto trabalhadores enfrentam juros, negativação e cobranças imediatas por dívidas comuns do dia a dia, os partidos passam a ter mecanismos de flexibilização, renegociação e uso de recursos públicos para quitar multas”.

Cíntia  também questionou a tramitação acelerada do projeto na Câmara dos Deputados e defendeu que “o debate precisava ser sobre ampliar a fiscalização, reduzir a influência do dinheiro nas eleições e permitir maior participação popular na política". Onde houver privilégios políticos em que quem paga a conta é o trabalhador, nosso posicionamento será contrário”, declarou.

Em Várzea Paulista, o líder do Partido Novo, Leandro Marques, defende que “a proposta funciona como uma forma de auxiliar partidos que ainda possuem pendências a regularizar”. Segundo ele, a medida pode aliviar a situação financeira de legendas e candidatos, além de permitir maior capacidade de renegociação política, beneficiando principalmente partidos menores e diretórios locais. No entanto, avalia que, no cenário regional, a mudança também pode impactar diretamente a competitividade eleitoral e abrir discussão sobre o rigor da fiscalização e uma possível “sensação de impunidade”.

Para ele, “de modo geral, a minirreforma fortalece regras, busca reduzir burocracias e ampliar a autonomia das legendas na administração de recursos e estratégias partidárias”. Segundo o dirigente, a proposta favorece maior autonomia principalmente na gestão financeira e na prestação de contas.

Disparo de mensagens em massa

A proposta também altera regras de campanha ao permitir o envio de mensagens automatizadas a eleitores previamente cadastrados. Segundo a proposta aprovada pelos parlamentares em Brasília, esse envio não será considerado irregular quando direcionado ao público cadastrado.

Marques avalia o lado positivo na ampliação dos meios de comunicação política. “Nós, do Partido Novo em Várzea Paulista, buscamos entender o uso dos meios digitais. Todo meio de comunicação é válido e, se existe essa ferramenta, por que não utilizá-la?”, disse.  O dirigente pondera apenas a necessidade de consentimento do eleitor cadastrado para receber a mensagem, mas avalia que “em grande parte, as tecnologias devem ser usadas a favor do debate político”.

Sobre o disparo de mensagens em massa, o cientista destacou a importância de trazer ao debate os dados abertos predispostos na internet sobre o eleitor. Segundo ele, um dos principais desafios será a fiscalização e a garantia de que o cidadão autorizou a entrada no banco de dados para envio das propagandas. Massucato, da OAB Jundiaí, comentou que a autorização é mais um problema que se soma a aos que se apresentam nas plataformas digitais. 

Apesar disso, o advogado eleitoral afirma que “a proposta dificilmente será aprovada pelo Senado ou sancionada sem vetos pelo presidente da República em ano eleitoral. Caso avance, avalia que o texto deverá ser judicializado por desrespeitar o princípio da anualidade eleitoral.”