28 de maio de 2026
OPINIÃO

À espera


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Havia no ar a música “Amazonas meu rio” de Paulo André Barata com versos em conversa de coração: “...Me leva meu rio/ Me leva meu rio, que eu vou/ Em marés das lua/ Meu rio minha rua, eu vou. / Me leva Amazonas/ Em fuso horário me roca/ No ventre da pororoca/ Cresço em braçadas de dor. / Me leva Amazonas/ Me arrasta em ‘terras caída’ / Cresço em rajadas de amor”.

De um lado estava ela, já envelhecida, à espera. Era filha do Amazonas, das populações ribeirinhas à margem do rio. Sobrevivia da pesca, de peixes como tambaqui e tucunaré e de ingredientes nativos como a farinha de mandioca e a tapiocas, cultivadas na pequena roça familiar. Nos problemas de saúde, as plantas medicinais se faziam solução. Os rios eram sua estrada para deslocar-se à cidade de barco ou canoa. Estava atrelada com o ciclo das águas. Crescera nesse meio, por isso não estranhava. Eram das margens de rios como o Rio Amazonas e o Rio Madeira. Estava em íntima relação com a natureza e os costumes, tradições e saberes que vinham da família. Sua casa, uma palafita. Na sua pequena comunidade havia uma capela, aberta apenas para limpeza. Muitos deles eram originários do fim do ciclo da borracha.

Muito cedo aprendeu a brincar e a navegar nas águas que a circundavam e sobre os seres encantados das florestas, como o curupira e a Matinta Pereira. Ao ouvir o seu assobio agudo e aterrorizante, rezava. Aprendera orações com a mãe. Participava de todas as festas de Nossa Senhora dos Navegantes e Nossa Senhora Conceição na cidade. Mesmo assim, estava à espera.

Do outro lado, ele, de um lugar distante. Jovem de 28 anos, nascido em Itapecerica – MG, que, com 11, entrou para o Seminário em Divinópolis, até que foi ordenado Padre em 1976. O Bispo de sua Diocese perguntou quem de seus Padres aceitaria ir em missão à Prelazia de Tefé, que era Igreja-Irmã da Diocese de Divinópolis. Uma distância de mais ou menos 2928 km.

A Prelazia é uma circunscrição eclesiástica da Igreja Católica no Brasil, pertencente à Província Eclesiástica de Manaus. Tefé, conhecida como a “Princesinha do Solimões” e “Coração da Amazônia”. Ele se dispôs a ir, como faz em tudo que se refere a anunciar o Reino do Céu. É uma cidade isolada por terra, cujo acesso é feito por avião ou lancha que sai do porto de Manaus, com 14 horas de viagem.

Segundo as estatísticas, a Floresta Nacional de Tefé abriga aproximadamente 99 comunidades (totalizando cerca de 900 famílias e 3.600 pessoas) distribuídas ao longo dos rios Tefé, Bauana e Curunitá de Baixo.

Havia no ar a conversa de Pedro com Jesus, que o guiava, antes de ser ordenado Bispo e depois Arcebispo: “Senhor, sabes tudo, tu sabes que te amo” (Jo 21, 17).
Passou a visitar de barco as comunidades. Em uma das visitas, veio a tempestade e era ele que conduzia a embarcação. Imaginou que morreria em meio às ondas enormes. O ribeirinho, que o acompanhava, orientou-o para um ponto em que pudesse atracar. Foi recebido pela senhora que estava à espera; à espera de um Padre para os Sacramentos, não só para ela, mas para alguns que preparara de sua gente.

Com esse acontecimento, na vida do querido Dom Gil Antonio Moreira, quarto Bispo Diocesano de Jundiaí e Arcebispo Emérito de Juiz de Fora, constato que jamais há decepção quando se espera em Deus.
 
Maria Cristina Castilho de Andrade, professora e cronista