27 de maio de 2026
OPINIÃO

Jundiaí e o paradoxo ambiental das cidades-modelo


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O título de “uma das melhores cidades do Brasil para se viver” costuma carregar uma aura de conquista. Jundiaí obteve o segundo lugar no ranking do Índice de Progresso Social (IPS) Brasil, alcançando 71,79 pontos, ficando atrás somente de Gavião Peixoto, também em São Paulo.

O levantamento foi elaborado pelo Instituto de Pesquisa Imazon, em parceria com a rede IPS Brasil, que avaliou 5.570 municípios brasileiros utilizando indicadores públicos de saúde, educação, segurança, saneamento, sustentabilidade e acesso a oportunidades.

Jundiaí se consolidou ao longo das últimas décadas como modelo de desenvolvimento urbano que combina infraestrutura, planejamento, localização estratégica e forte presença industrial e logística. Tornou-se polo atrativo para empresas, investimentos e famílias em busca de melhor equilíbrio entre trabalho, mobilidade e segurança.

Hoje, a cidade vive o paradoxo de ao mesmo tempo em que celebra o reconhecimento nacional pela qualidade de vida, precisa enfrentar a difícil missão de proteger aquilo que a colocou no topo.  É justamente nesse ponto que a Serra do Japi entra no centro da discussão. Tombada como patrimônio ambiental e considerada uma das áreas mais importantes de Mata Atlântica do Estado de São Paulo, a serra funciona como um verdadeiro escudo ecológico para a região. Ela regula o clima, protege nascentes, preserva biodiversidade e ajuda a conter impactos ambientais decorrentes da expansão urbana.

Nos últimos anos, o crescimento acelerado, urbanização intensa e coação imobiliária constante, condomínios residenciais e loteamentos passaram a pressionar corredores ecológicos importantes da região. A fragmentação dessas áreas afeta diretamente o equilíbrio ambiental e ameaça comprometer, no médio prazo, a sustentabilidade urbana que atualmente garante os bons indicadores do município.

Duas décadas após a Lei Complementar nº 417/2004, que estabeleceu mecanismos de proteção ambiental, Jundiaí volta a discutir a necessidade de ampliar a blindagem da Serra do Japi diante do avanço imobiliário. O Projeto de Lei 1183/2026 busca justamente reforçar barreiras contra novos grandes empreendimentos em áreas sensíveis e zonas de amortecimento.

O IPS Brasil evidencia um novo tipo de disputa entre municípios brasileiros. Não basta mais crescer economicamente. O verdadeiro diferencial competitivo das cidades passa a ser a capacidade de preservar o equilíbrio entre desenvolvimento urbano, sustentabilidade ambiental e bem-estar humano. Nenhuma cidade consegue sustentar qualidade de vida apenas com decretos, conselhos ou índices estatísticos. É necessária a participação consciente da sociedade, fiscalização contínua e visão estratégica de longo prazo.

No fundo, o maior desafio de Jundiaí não é conquistar boas notas em rankings nacionais. É conseguir permanecer sendo, nas próximas décadas, a cidade que esses indicadores descrevem hoje.

Rosângela Portela é jornalista, consultora e mentora em comunicação