27 de maio de 2026
OPINIÃO

No seu pescoço


| Tempo de leitura: 2 min

Pertencimento, memória, relacionamentos amorosos (em andamento ou superados), inserção social, educação familiar, preconceitos... Os temas são variados no livro de contos “No seu pescoço”, da escritora Chimamanda Ngozi Adichie. São doze histórias passadas na Nigéria (país em que a autora nasceu) ou nos Estados Unidos (onde reside parte do ano). Chimamanda vem do mais populoso país africano (são mais de 206 milhões de habitantes), com cerca de 250 etnias diferentes e com pouco mais de 500 idiomas falados (em que o inglês é a língua oficial, herança do colonizador). Seu território é imenso (pouco mais do que a extensão do estado brasileiro do Mato Grosso). Dessas muitas etnias nigerianas, destacam-se os igbos, os hausas e os iorubás. Estes últimos, por sinal, vieram aos milhares para o Brasil, escravizados entre os séculos 17 e 19. Ou seja, a cultura iorubá (e por extensão, nigeriana) tem tudo a ver com o Brasil, sua formação e caminhos.

No livro de Chimamanda, a Nigéria retratada exibe sua rica cultura diversificada e também os conflitos que marcam o país. Como no conto “Uma experiência privada”, em que o acaso determina que a jovem Chika, rica, cristã e da etnia igbo, permaneça muitas horas escondida junto com uma mulher pobre, muçulmana e da etnia hausa. Explode um conflito na cidade e Chika corre pelas ruas a fim de buscar abrigo. Orientada pela mulher mais velha, cujo nome não aparece, elas se escondem no subsolo de uma loja abandonada. Conversam e se dão conta de perdas semelhantes que ambas sofreram. Lá fora a pancadaria corre solta e dentro do esconderijo nasce uma amizade que dura a extensão das linhas do conto. Em “Fantasmas”, professor universitário de Matemática, reencontra no campus antigo colega de militância política, a quem considerava morto.

A conversa dos dois repõe em cena o passado recente do país, a Guerra da Biafra – conflito civil dos anos de 1960 – e seus desdobramentos. A imigração e as tentativas – ou não – de integração ao novo contexto aparecem em contos como “Os casamenteiros” e “Na segunda-feira da semana passada”. No primeiro, mulher nigeriana emigra para os Estados Unidos, a fim de encontrar o marido, em casamento arranjado por parentes. O rapaz trabalha como médico e mora num condomínio popular e a garota observa a cena em redor, surpresa com as muitas novidades do novo cotidiano que lhe coube. No outro conto – bem humorado e ao mesmo tempo melancólico – uma jovem nigeriana trabalha como babá de um garotinho esperto. A moça – com pós-graduação concluída em seu país, - submete-se ao novo emprego para pagar as contas, enquanto percebe as neuras e contradições da sociedade em que desembarcou.

Chimamanda sabe criar extraordinários perfis femininos, mulheres determinadas – muitas delas recheadas de dúvidas – que tocam o barco em contexto tantas vezes hostil.  A escritora nasceu em 1977, filha de professores universitários. Sua obra está publicada em mais de 30 línguas.    

Fernando Bandini é professor de Literatura