23 de maio de 2026
OPINIÃO

Profecia


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Há décadas sabíamos. Não era falta de aviso, nem ausência de ciência, nem exagero de ambientalistas. Desde os anos 1980, o mundo já compreendia que a emissão crescente de gases produzidos pela queima de combustíveis fósseis alteraria o clima do planeta. A profecia estava escrita em relatórios, conferências, estudos e alertas. Mesmo assim, seguimos como se o futuro fosse uma abstração distante.

Hoje, ele chegou. Chegou em forma de calor extremo, tempestades violentas, estiagens prolongadas, enchentes, perda de biodiversidade e insegurança para as cidades. A mudança climática deixou de ser previsão para se tornar rotina. E ainda não sabemos o que el niño irá nos causar neste segundo semestre. O que antes parecia advertência agora bate à porta, invade casas, sobrecarrega sistemas públicos e expõe a fragilidade do modo como ocupamos o território.

Jundiaí conhece bem a força de uma visão ambiental ousada. Na década de 1980, quando muitos ainda tratavam rios urbanos como esgoto a céu aberto, houve coragem para iniciar a despoluição do Rio Jundiaí. Aquela geração entendeu que desenvolvimento não poderia significar degradação permanente. Foi um gesto de futuro, daqueles que mudam a relação de uma cidade com sua própria paisagem.

Mas a pergunta que se impõe agora é: onde estão os projetos ambientais à altura do nosso tempo? Se no passado fomos capazes de olhar para o rio e enxergar possibilidade de recuperação, hoje precisamos olhar para o calor, para a impermeabilização do solo, para a perda de áreas verdes, para os bairros cada vez mais quentes e para a pressão sobre a Serra do Japi com a mesma coragem.

Jundiaí precisa tratar seu microclima como política pública. Arborizar não pode ser apenas plantar árvores em datas comemorativas. É preciso um plano robusto, contínuo e tecnicamente orientado de arborização urbana, com prioridade para regiões mais adensadas, corredores de sombra, proteção de nascentes, recuperação de áreas degradadas e integração entre mobilidade, habitação e meio ambiente.

A Serra do Japi, patrimônio natural de valor incalculável, também exige vigilância permanente. Não basta celebrá-la como símbolo. É preciso protegê-la como infraestrutura vital da cidade. Ela regula temperatura, preserva biodiversidade, guarda água, sustenta equilíbrio ambiental e compõe a identidade mais profunda de Jundiaí. Qualquer ameaça à Serra é uma ameaça ao futuro da cidade.

A profecia climática não falhou. Nós é que demoramos demais para ouvi-la. Ainda há tempo para agir, mas não há mais espaço para discursos pequenos. O desafio ambiental de hoje exige a mesma ousadia dos que, décadas atrás, acreditaram que era possível devolver vida ao Rio Jundiaí.

O futuro cobrará de nós a coragem que tivemos — ou a omissão que escolhemos.

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ