22 de maio de 2026
OPINIÃO

Dentes, para que vos quero?


| Tempo de leitura: 3 min

Dor de cabeça é um sintoma tão comum quanto desafiador para o tratamento, pois, como eu costumo comparar para os pacientes, é como montar um quebra-cabeças onde não sabemos se temos todas as peças. Vários elementos diferentes e, ao mesmo tempo associados entre si, podem contribuir para sustentar um estado de dor recorrente, às vezes por anos.

Para problemas difíceis, trabalho em equipe pode ajudar! Por isso vários profissionais além do médico se associam para “cercar” a situação e trazer o melhor de cada um em prol da resolução. Dentre eles, está cada vez mais marcante a presença do odontólogo, o cirurgião-dentista.

Sem surpresas, não é mesmo? Localizado na cabeça está o chamado “aparelho manducatório”, nome oficial do conjunto de estruturas que trabalham para que possamos morder, mastigar, engolir e mesmo falar. Engloba os ossos, dentes, articulações, músculos e nervos na região e qualquer destas estruturas podem ser “gatilho” para iniciar uma crise de dor de cabeça fortíssima, se não funcionar harmonicamente.

Aliás, o dente, bem sabem meus colegas dentistas, é uma peça muito interessante neste “quebra-cabeça” infame. Normalmente não paramos para pensar nisto, mas os dentes são estruturas muito mais antigas que nossos corpos humanoides. De fato, a ideia e função destes “prolongamentos” dos ossos, encapados por uma dura camada de esmalte, é mais antiga que a raça humana, que os mamíferos e mesmo outros seres terrestres.

Os primeiros indícios surgiram no oceano primitivo, há 350 milhões de anos, entre seres que eram parecidos com enguias e mais parentes dos nossos peixes de hoje, com estruturas no contorno da boca e alavancas ósseas que os permitiam realizar o famoso ato de morder.

Pode parecer estranho, mas além de ser uma ação predatória, a mordida é também um fator de equilíbrio entre as espécies, já que antes dela a alimentação era simples: os maiores “sugavam” os menores, que nada faziam a respeito, a não ser fugir. Com dentes, a história vira; os menores ganham um recurso a mais e conseguem dar uma bela mordida de “retribuição” quando se sentem atacados, tornando a predação bem menos tranquila para os grandões.

Percebem que, desde então, a mordida tem mais que um simples sentido alimentar? Representa uma defesa através de um potencial ofensivo (do tamanho da boca) e que está criptografado nas células de músculos, articulações e sistema nervoso primitivo de todos os seres evoluídos desta arquitetura “bélico-alimentar”, ou seja, todos os que vivem em nosso tempo, incluindo nós mesmos.

Diante de exigências desmedidas de um chefe, uma pessoa pode se sentir pressionada, tensa e mesmo com dores de cabeça por conta dos músculos poderosos que existem na região, eletricamente ativados diante de um “perigo”. À noite, essa pessoa pode inclusive “ranger” dentes, o sintoma do bruxismo, outro velho conhecido dos dentistas.

Por que nosso cérebro carrega de eletricidade especificamente estes músculos diante do “perigo” de um patrão enfurecido? Trata-se de um reflexo primitivo trazendo segurança através da possibilidade de revidar, como seu corpo sabe há milênios e a equipe que trata da sua dor de cabeça também deveria saber.

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura, medicina tradicional chinesa, osteopatia e criador do método de medicina psicobiológica