19 de maio de 2026
OPINIÃO

Feminicídio, é preciso ir além do discurso


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A fala da pastora Helena Raquel, que viralizou ao denunciar abusos sexuais e violência doméstica dentro da igreja evangélica, trouxe à tona uma realidade que o Brasil insiste em tratar como surpresa. Em entrevista ao programa Estúdio CBN, ela afirmou que “é preciso encarar o problema” e dar nome aos crimes que, durante décadas, foram abafados pelo medo, pela vergonha e pelo silêncio institucional.

Mas a verdade é que o problema não está apenas dentro das igrejas. Ele está em toda a sociedade brasileira.

Todos os dias, políticos, autoridades e campanhas públicas repetem discursos sobre a necessidade de combater o feminicídio. O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva frequentemente menciona o tema em eventos e pronunciamentos. Ainda assim, mulheres continuam sendo assassinadas dentro de casa, crianças seguem sofrendo abusos e milhares de vítimas permanecem em silêncio por medo de não serem acreditadas.

O Brasil se acostumou a transformar tragédias em estatísticas. A cada novo caso brutal, surgem notas oficiais, hashtags, entrevistas emocionadas e promessas de endurecimento das leis. Depois, tudo volta ao normal — até a próxima vítima ocupar as manchetes.

A coragem da pastora não está apenas em denunciar crimes dentro do ambiente religioso, mas em expor algo ainda mais profundo: o pacto de silêncio que existe em instituições de todos os tipos. Igrejas, famílias, escolas, empresas e até estruturas públicas muitas vezes preferem proteger reputações em vez de proteger as vítimas.

Falar sobre feminicídio virou consenso. Combater de fato ainda não.

O problema não é a falta de discursos. O problema é a ausência de mudança prática. Falta acolhimento às vítimas, investigação rápida, proteção eficiente e punição exemplar. Falta educação emocional para os homens. Falta coragem institucional para enfrentar abusadores influentes. Falta romper a cultura de que determinadas violências devem ser resolvidas “em casa”.

Quando uma mulher denuncia e não encontra apoio, o sistema inteiro fracassa. Quando uma criança tenta falar e é desacreditada, a sociedade inteira falha junto.

O Brasil precisa parar de tratar violência contra mulheres e crianças como pauta ocasional de comoção pública. Não é tema de campanha. É uma emergência social permanente.

A fala de Helena Raquel repercutiu justamente porque rompeu uma barreira que muitos preferiam manter intacta: a de que certos ambientes seriam moralmente imunes ao crime. Não são. Nenhuma instituição é.

Enquanto o país continuar confortável apenas em lamentar mortes depois que elas acontecem, seguiremos acumulando discursos fortes e resultados fracos.

Encarar o problema, como disse a pastora, significa muito mais do que falar sobre ele. Significa finalmente agir. E isso significa ter DDMs 24h, equipe de acolhimento municipal para as vítimas, e educação firme e consistente nas escolas combatendo o machismo. Ter uma filha, hoje, é rezar para que não seja mais uma vítima.

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ