14 de maio de 2026
OPINIÃO

Banho de realidade


| Tempo de leitura: 3 min

Não está fácil suportar o incalculável peso das más notícias que nos afligem sem cessar. No mundo, que rasgou todos os tratados de Direito Internacional, esvaziou os organismos que zelavam pela paz e fez prevalecer a força bruta e a irracionalidade. No Brasil, em que se chafurda na lama e se mergulha na corrupção, num banquete promíscuo entre aventuras sexuais e a maldita fome do ouro, que já comentei aqui.

É importante que, nas próximas eleições, foquemos o que resta de confiabilidade para não lotar o Parlamento de figuras profissionais da política, sem qualquer projeto que não seja o de se enriquecer e aos seus. Nunca houve um Parlamento como o de hoje, cuja atuação não é parlamentar. É “para lamentar”. E recorde-se de Ulisses Guimarães: “Você critica o Legislativo atual? Aguarde o próximo!”. Vamos tentar desmentir o grande artífice da reconstitucionalização tupiniquim?

Para a nossa cidade, insistir em votar em candidatos locais. Não faz sentido votar em forasteiro que só se lembra de Jundiaí a cada pleito. Só quem conhece os problemas da cidade e região é que poderá atuar naquele complexo organismo que é o Parlamento. Cada deputado tem de ser fiel à sua base. Temos condições de eleger legisladores estaduais e federais. E como hoje, no Brasil, o Executivo é refém do Parlamento, cumpre prover as duas Casas Federais – Câmara e Senado – e a Assembleia Legislativa, de pessoas com as quais podemos conversar e endereçar nossas demandas.

Juízo, portanto, que é algo que parece faltar aos brasileiros, responsáveis pela anomia e pelo abastardamento da vida pública em altas esferas.

Mas o “banho de realidade” também precisa fazer com que a cidadania tome conhecimento de outras mazelas que nos afligem, além daquelas detectadas no governo. Uma delas, é o índice crescente de feminicídio e de abusos sexuais praticados contra crianças e adolescentes. Para conhecer melhor o que acontece, é bom assistir o documentário “Machosfera” na Netflix. A partir de suas denúncias, a filósofa Djamila Ribeiro elaborou um curso online com apenas cinco aulas, para disseminar a cultura de proteção aos mais vulneráveis, aí incluídas mulheres, meninas e crianças em geral, independentemente do sexo.

Outra lição para nos conscientizar a respeito da excessiva produção de resíduos sólidos – eufemismo pelo qual hoje chamamos o lixo – é outro documentário da Netflix, chamado “Conspiração Consumista”. Além da Inteligência Artificial generativa, que nos manipula e sabe mais de nós do que nós mesmos, somos alvo da ganância de vários setores produtivos, que criam a indústria da obsolescência e nos condenam a exaurir nossa capacidade de compra, enquanto vamos convertendo o nosso único planeta – a sofrida Terra – em esfera coberta de imundície.

Não custa sempre repetir a urgência da advertência do Papa Francisco, o “Papa Verde”, o “Papa Ecológico”, que nos deixou fisicamente há um ano e que foi o artífice da Encíclica “Laudato Si”. Ele diz, a certa altura: “Não existe o conceito de ‘jogar fora’. Por mais que desperdicemos, tudo está neste único habitat com o qual podemos contar!”. E já está extenuado o planeta, pois nossa crueldade insensível não tem limites! Veja-se a situação da atmosfera, da água e do solo.

Por fim, não custa assistir ao documentário “It’s never over, Jeff Buckley”. Está disponível no Prime Vídeo. Não é muita gente que conhece Jeff Buckley, de vida breve e tumultuada. Exímio violonista, era uma esponja a replicar a técnica de gênios do violão, como Al Di Meola.

Obteve sucesso repentino e a fama não respeita estruturas mentais frágeis. Ele era filho de uma jovem de dezessete anos e de um pai artista que morreu de overdose. Em fevereiro de 1997, mergulhou em um canal do Mississipi e morreu aos 30 anos. Uma lição de como a busca da fama e da celebridade, também presente nos escândalos tupiniquins deste ano fatídico de 2026, gera consequências catastróficas.

Extrair ensinamentos desse acervo à disposição no streaming é algo que nos ajuda a manter a lucidez, se é que ainda não a perdemos de todo.

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo