13 de maio de 2026
OPINIÃO

Cadernos, lápis e canetas ganham destaque


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O governo sueco decidiu reinvestir em livros físicos, cadernos, lápis e escrita à mão. O plano prevê aplicações superiores a 685 milhões de coroas suecas para recolocar livros impressos nas escolas, assim como reduzir o tempo de exposição às telas, principalmente entre crianças pequenas.

O projeto ganhou força após resultados ruins em exames internacionais como o PIRLS e o Pisa, avaliações globais que medem desempenho em leitura e matemática.

A ministra da Educação sueca, Lotta Edholm, afirmou que o país corria o risco de criar uma “geração de analfabetos funcionais” caso continuasse apostando numa digitalização feita de forma acrítica. Entre os principais fatores que levaram o governo a recuar estão a queda na compreensão de leitura; piora na capacidade de concentração; excesso de distrações digitais; perda do hábito da leitura profunda; dependência crescente de telas; dificuldade de retenção de conteúdo; impacto negativo da leitura em telas retroiluminadas; redução da escrita manual; uso dos dispositivos mais para entretenimento do que aprendizado.

A neurocientista cognitiva Maryanne Wolf, pesquisadora da Universidade da Califórnia e autora do livro “O Cérebro no Mundo Digital” defende que a leitura profunda, especialmente em papel, ativa circuitos cerebrais ligados à interpretação crítica, empatia, memória e capacidade analítica. Segundo ela, o excesso de leitura fragmentada em telas pode estimular a “impaciência cognitiva”, reduzindo a capacidade de concentração prolongada e compreensão complexas.

No Brasil, o neurocientista Miguel Nicolelis adverte que escrever manualmente não é apenas um método pedagógico, mas um processo essencial para a formação neural da criança. O cientista afirma que a escrita ativa simultaneamente memória, coordenação motora, linguagem, atenção e organização cognitiva. Nicolelis diz que substituir precocemente essas experiências humanas por interfaces digitais pode gerar impactos “imensuráveis e imprevisíveis” não apenas na educação, mas em toda a dinâmica social, econômica e cultural das futuras gerações.

A Unesco  também passou a alertar que a tecnologia, sozinha, não melhora a educação. Em relatório recente, a entidade afirmou que a introdução indiscriminada de dispositivos digitais nas escolas pode ampliar desigualdades e prejudicar o aprendizado quando não existe estratégia pedagógica sólida.

A Suécia continua utilizando recursos digitais, agora sobre a perspectiva que a tecnologia deve apoiar o aprendizado, e não substituir competências humanas fundamentais, como leitura profunda, escrita, interpretação e pensamento crítico.

O caso sueco atravessou fronteiras e a discussão se transformou num debate global questionando se a hiper digitalização melhora a educação e quando ela começa a comprometer habilidades cognitivas essenciais. A experiência nas escolas da Suíça passou a ser observada como um “freio estratégico” numa cultura educacional que havia apostado quase cegamente nas telas.

Rosângela Portela é jornalista, consultora e mentora em comunicação