12 de maio de 2026
OPINIÃO

O valor agregado como bússola do desenvolvimento


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O conceito de valor agregado é, em essência, a alma da transformação econômica. Imagine a diferença entre exportar uma saca de minério de ferro e vender uma turbina de avião. A diferença reside na inteligência, na tecnologia e no design aplicados. Historicamente, essa noção ganhou corpo no século XVIII, com os fisiocratas, mas foi consolidada cientificamente por Adam Smith em sua obra "A Riqueza das Nações" (1776). Smith percebeu que a riqueza não advinha apenas da posse de metais preciosos, mas da capacidade de uma nação de transformar insumos básicos em produtos de maior utilidade por meio do trabalho e da inovação.

Para um país, o valor agregado é o divisor de águas entre a estagnação e a prosperidade. Nações que exportam apenas commodities (termo para produtos básicos, como soja, milho ou minério, que servem de matéria-prima, têm baixo processamento e preços definidos pelo mercado global, e não por quem os produz) ficam à mercê de oscilações externas. O Brasil possui uma tradição histórica enraizada na exportação desses itens primários. Embora o país seja uma potência mundial no setor, essa dependência excessiva vulnerabiliza a balança comercial. Quando os preços internacionais caem, nossa arrecadação despenca, pois vendemos grandes volumes para comprar produtos manufaturados caros. É a lógica de trocar "toneladas de ferro por gramas de microchips".

Estatísticas da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) mostram que produtos de alta tecnologia cresceram em ritmo muito superior aos básicos. Precisamos, portanto, trabalhar a industrialização para equilibrar a balança: produtos com valor agregado retêm lucros e tecnologia no mercado interno. Muitos acreditam que apenas a indústria faz isso. É um equívoco. O setor de serviços e o agronegócio moderno, com biotecnologia e softwares de precisão, também o fazem. Contudo, a indústria tem o efeito multiplicador, gerando impactos maiores em toda a cadeia produtiva nacional.

O desenvolvimento sustentável exige que o Brasil supere o papel de mero fornecedor de insumos. O impacto direto dessa mudança está na qualidade de vida: o valor agregado demanda e remunera melhor uma mão de obra qualificada, elevando o nível educacional e a renda per capita. Ao refinarmos o que extraímos, fortalecemos a balança comercial, reduzimos a dependência de importações tecnológicas e garantimos autonomia econômica. O caminho para um país forte passa por converter nosso imenso potencial natural em produtos finais sofisticados, garantindo que o Brasil não apenas participe do mercado global, mas dite o seu próprio ritmo de crescimento.

Francesconi Júnior é primeiro vice-presidente do Ciesp e diretor da Fiesp