10 de maio de 2026
MUDANÇA DE PERFÍL

Aumentam eleitores com mais de 60 anos

Por Alan Cavalieri |
| Tempo de leitura: 4 min
Paulo Pinto / Agência Brasil
Mais de 36 milhões de idosos poderão votar nas eleições de outubro

O número de eleitores idosos vai crescer nas eleições de 2026. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que 23% dos votantes registrados até março tinham 60 anos ou mais. O fenômeno acompanha o envelhecimento da população brasileira, que registrou aumento de 74% no eleitorado idoso nos últimos anos. O índice é cinco vezes maior do que o avanço do eleitorado geral no mesmo período, que foi de 15%. Na contramão desse crescimento, a participação de jovens de 15 a 17 anos caiu 23% nos últimos anos. Os dados foram analisados pela Nexus-Pesquisa e Inteligência de Dados.

Segundo o cientista político e doutorando pela Unicamp, Fabiano Pereira, o aumento do eleitorado com mais de 60 anos acompanha diretamente o envelhecimento da sociedade brasileira. Para ele, o fenômeno segue a mudança demográfica do país e passa a exigir novas políticas públicas voltadas à dinâmica emergente dessa população. Segundo o estudo, o eleitorado 60+ passou de 20,8 milhões em 2010 para 36,2 milhões em março deste ano. 

Segundo os dados, em três décadas, a população com 60 anos ou mais passou de 7% para 16% dos brasileiros, enquanto o eleitorado 60+ já representa 23,2% dos votantes. Fabiano aponta que esse cenário deve influenciar o comportamento político e os programas de governo. Com uma parcela maior e mais ativa do eleitorado, candidatos e partidos podem direcionar propostas específicas às demandas da população idosa. 

Em Jundiaí, uma Comissão Especial do Idoso foi criada na Câmara Municipal para discutir o envelhecimento da população e a necessidade de políticas públicas, com o objetivo de ampliar o diálogo entre poder público e sociedade sobre o tema. O presidente da comissão, Faouaz Taha (PSD), enfatiza que “idosos precisam ter condições plenas de participação e representação” e afirma que é necessário que cidades e políticas públicas estejam preparadas para acolher os diferentes perfis da população 60+, garantindo que se sintam ouvidos e incluídos no processo democrático.”

No Executivo, o assessor da Assessoria de Políticas Públicas para o Idoso, José Albino Miazzo, afirmou que o crescimento da população idosa exige maior atenção do poder público. Segundo ele, cerca de 19,2% dos moradores de Jundiaí têm mais de 60 anos, o que representa aproximadamente 92 mil pessoas. “Isso reforça a necessidade de políticas públicas cada vez mais inclusivas e eficientes”, destacou. 

Os dados reforçam essa atividade, segundo o índice, a  taxa de abstenção do eleitorado com mais de 60 anos caiu nas últimas eleições, passou de 37,1% em 2014 para 36,4% em 2018 e chegou a 34,5% em 2022. Na contramão, a abstenção do eleitorado brasileiro em geral apresentou crescimento no mesmo período, saindo de 19,4% em 2014 para 20,3% em 2018 e atingindo 20,9% no último pleito nacional.

Entre os eleitores com mais de 70 anos, faixa em que o voto é facultativo, o comparecimento às urnas também aumentou. A taxa de abstenção desse público caiu de 63,6% em 2014 para 62,7% em 2018 e 58,9% em 2022.

Já entre os jovens de 15 a 17 anos, também dispensados da obrigatoriedade do voto, o movimento foi inverso. Em 2012, mais de 2,5 milhões de jovens compareceram às urnas, enquanto, em 2024, doze anos depois, o número caiu para cerca de 1,6 milhão.

Por que o eleitorado apto 60+ cresce e o jovem diminui? 

O cientista político avalia que a pessoa idosa possui uma relação diferente com a política por carregar uma “memória política” ligada a processos históricos, como o período autoritário e as conquistas democráticas do país. Segundo ele, essa experiência faz com que muitos idosos tenham maior participação eleitoral e compreensão da importância do voto como instrumento de transformação social.

Enquanto isso, sobre a participação dos jovens, Pereira entende que o cenário atual envolve fatores sociais e políticos distintos. Para ele, a geração mais nova cresceu em um ambiente marcado por polarização política, crise de representatividade, medo e violência política. O cientista político também relaciona o fenômeno ao contexto da pandemia, que impactou a formação social e política dessa geração.

O pesquisador avalia ainda que o crescimento do eleitorado idoso e o desinteresse de parte dos jovens devem servir de reflexão para governos, instituições e sociedade sobre quais políticas públicas estão sendo construídas e quais grupos estão sendo alcançados.

No campo jurídico, o advogado da OAB Jundiaí na área eleitoral, Alceu Eder Massucato, afirma que a legislação eleitoral tem buscado garantir a participação de toda a população no processo democrático. Segundo ele, a lei trabalha “para que todos tenham igualdade e possam participar das eleições”. Neste ano, a Justiça Eleitoral publicou a Resolução nº 23.753, que estabelece diretrizes para ampliar a acessibilidade e garantir o exercício do voto por pessoas com mobilidade reduzida e pessoas com deficiência, por exemplo. Entre as medidas previstas estão atendimento prioritário, mecanismos de acessibilidade e oferta de transporte no dia da eleição, buscando assegurar o acesso de todos aos locais de votação.