10 de maio de 2026
OPINIÃO

Rádio, para sempre


| Tempo de leitura: 3 min

Tenho me comovido nas últimas semanas com o movimento contra o fechamento da Rádio Eldorado FM, pertencente ao Grupo Estado. Há quase 70 anos no ar, a rádio foi resiliente e resistente à massificação de seu conteúdo, trazendo curadorias para programas musicais sensacionais, em que a ótima música brasileira esteve sempre presente, assim como imperdíveis shows de jazz, rock e novos nomes musicais. Se algo a define, eu diria que é o bom gosto.

No último domingo, trabalhadores e ouvintes se uniram em uma passeata na avenida Paulista para protestar. Houve um simbólico abraço e a sensação de estarmos órfãos de bons conteúdos musicais neste país massificado pelo algoritmo.

Enquanto escrevo, estamos preparando aqui a programação de aniversário da Rádio Difusora, que vai completar 80 anos em junho. Nossa Rádio Difusora, do hub do JJ, é também uma jovem senhora resiliente. Por aqui passaram tantas memórias, tantos shows, nomes reconhecidíssimos, de Hebe à Jovem Guarda, iluminando o dia a dia do jundiaiense. Dr. Tobias Muzaiel, nosso patrono, comandava os programas de auditório de uma Jundiaí longínqua, em que as relações sociais eram profundas e amistosas. Nosso querido comunicador vinha diariamente à sua rádio, para o seu programa diário, mesmo em idade avançada. Lia as notícias do dia, comentava seu jornal (mandava a crítica para mim), e convidava seus cantanti  d’Italia para adoçar nossa programação.

Os tempos são outros, eu sei. Eu me lembro, ainda moça, de programas em que se endereçaram músicas para uma pessoa escolhida. Algo tão raro nestes dias, em que os afetos insinceros pairam no ar.    

Mas de afetos também se faz uma rádio. Estar 80 anos no ar não é para qualquer um. E, para isso, temos que reconhecer os esforços de nossos diretores, Sueli Muzaiel e Tobias Muzaiel Jr., por manter a rádio ativa, diariamente no ar e na vida dos jundiaienses. Esta rádio senhora está prestes - vejam vocês! - a migrar para a FM  - trazendo mais qualidade técnica e sonora aos ouvintes.

Neste momento em que escrevo, estou em frente ao estúdio da rádio, onde se preparam os programas de jornalismo diário. Uma programação voltada à economia local, à nossa população, aos bairros e aos torcedores fanáticos do nosso Paulista.

O trabalho de levar informação é grandioso. Recordo-me da nossa responsabilidade durante a covid-19.  Em cenários de catástrofe, quando redes móveis e internet falham, o rádio volta a ser essencial, pois também funcionam à pilha e estão disponíveis nas casas das pessoas ou embaixo dos seus braços, quando têm de deixar suas casas às pressas.

Exemplos ao redor do mundo reforçam essa relevância. Durante o furacão Katrina, nos Estados Unidos, e em diversos terremotos e enchentes na América Latina, o rádio foi o principal meio de comunicação ativo nas primeiras horas — justamente quando a resposta rápida é mais necessária.

No Brasil, onde eventos climáticos extremos têm se tornado mais frequentes, a valorização deste meio ganha urgência. Investir na manutenção e modernização das rádios AM e FM não é apenas uma questão de preservação cultural, mas de segurança pública e defesa civil.

Às minhas costas, tenho uma fotografia do Dr. Tobias. Parece que a alegria tomou conta do nosso estúdio e que ele me assopra palavras de encorajamento e de vida. Não cabem numa crônica só tantas pessoas que temos a agradecer.  A gente só está aqui porque há ouvintes. Só entra na casa das pessoas logo pela manhã cedinho porque há profissionais dedicados. E, vamos combinar, chegar aos 80 anos não é para qualquer empresa.

Obrigada por nos apoiarem, por nos ouvirem e por fazerem desta experiência uma vida em conjunto.

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ