09 de maio de 2026
OPINIÃO

Produto sem valor de conversa não sobrevive


| Tempo de leitura: 2 min

Durante décadas, o valor de um produto esteve associado à sua funcionalidade, preço ou qualidade técnica. Isso não desapareceu, mas deixou de ser suficiente. Hoje, produtos e serviços precisam gerar narrativa, algo que as pessoas queiram comentar, compartilhar, recomendar. Em outras palavras, precisam entrar na roda de conversa, seja ela no café da esquina, nos grupos de WhatsApp ou nas redes sociais.

O ponto levantado por Michel Alcoforado na matéria para a revista Exame no último dia 3, dialoga diretamente com essa transformação: produtos precisam ter história, propósito ou algum elemento que os diferencie no campo simbólico. Não basta ser “bom” é preciso ser comentável. Isso explica por que negócios que investem em experiência, seja um café com ambientação marcante, uma feira gastronômica temática ou um evento cultural, conseguem se destacar mesmo em mercados competitivos.

Por outro lado, há um risco evidente nessa lógica. A busca pelo “valor de conversa” pode levar a uma superficialidade, onde o espetáculo substitui a substância. Nem tudo que viraliza sustenta relevância no longo prazo.

Em Jundiaí, esse fenômeno é particularmente interessante. A cidade, com forte herança italiana e vocação para o empreendedorismo, sempre valorizou o “boca a boca”. Vinícolas, restaurantes familiares e comércios tradicionais cresceram com base na reputação construída entre clientes fiéis. O que muda agora é a velocidade e o alcance dessa conversa. O que antes circulava entre vizinhos, hoje pode ganhar projeção regional — ou desaparecer rapidamente se não gerar engajamento.

Como carregamos um patrimônio histórico e cultural significativo, o desafio é equilibrar inovação com autenticidade. Transformar tradição em narrativa viva, sem reduzi-la a mero produto de marketing. Isso vale também para iniciativas públicas e culturais. Projetos que conseguem mobilizar a população — exposições, festivais, ações urbanas — são aqueles que criam identificação e geram conversa. Não por acaso, eventos que resgatam a história local ou reinterpretam a identidade da cidade, como a Festa da Uva e a Festa Italiana, tem maior repercussão. Eles oferecem mais do que entretenimento: oferecem pertencimento.

A tese de Alcoforado aponta para uma mudança mais ampla: estamos vivendo em uma economia da atenção, onde o que não circula socialmente tende a desaparecer. Para empreendedores, gestores e agentes culturais, isso significa pensar menos apenas no produto final e mais na experiência e na história que o envolve.

A pergunta deixa de ser “isso é bom?” e passa a ser “isso é digno de ser contado?”. Em uma cidade que sempre valorizou suas histórias, da imigração italiana às transformações urbanas recentes, talvez a resposta esteja menos em inventar algo novo e mais em saber contar, com inteligência e sensibilidade, aquilo que já existe.

Se produto sem valor de conversa não sobrevive, como diz Alcoforado, então o futuro pertence àqueles que entendem que toda boa ideia precisa, antes de tudo, motivar as pessoas e dar assunto.

Eduardo Carlos Pereira é arquiteto e urbanista