12 de maio de 2026
DIAS DAS MÃES

Maternidade vai além do sangue e redefine conceito de família

Por Giulianna Mazzali |
| Tempo de leitura: 5 min
Jornal de Jundiaí
Arquivo pessoal
Aline Bertaglia compartilha os desafios da maternidade solo e reflete sobre a importância de equilibrar o cuidado com o filho e o olhar para si mesma

O amor de mãe não segue um único roteiro. Ele pode nascer do vínculo biológico, da adoção, da escolha diária, da presença constante e das surpresas que a vida prepara ao longo do caminho. Neste Dia das Mães, a data convida a olhar para aquilo que une todas essas mulheres: o amor. Nos abraços, na rotina corrida, nos gestos silenciosos de cuidado, nos conselhos repetidos e nas demonstrações de afeto, mães diferentes entre si compartilham um sentimento universal que atravessa gerações, formatos e experiências. Mais do que um papel definido por laços sanguíneos, a maternidade se revela, todos os dias, no cuidado, na entrega e nas múltiplas maneiras de amar.

Para algumas mulheres, o amor materno é um sonho. Bárbara (32) e Tatiana (41) estão juntas há sete anos e são mães da Maria Luísa, de apenas três anos. Elas explicam que o desejo de construir uma família juntas nasceu de forma natural no relacionamento. “Cada uma já sabia o papel que gostaria de desempenhar nesse processo. Eu, Bárbara, sempre soube que queria viver a experiência da gravidez e sentir nossa filha crescendo dentro de mim. Já a Tati sabia que queria ser mãe de todas as formas possíveis, independentemente de gestar.”

Esse processo, porém, não foi necessariamente fácil. O casal relata a demora em conseguir a tão sonhada gravidez, já que elas optaram pela fertilização in vitro. “Ao todo, foram cerca de dois anos e três tentativas até recebermos o resultado positivo. Foi um caminho intenso, que exigiu preparo emocional, paciência e união, mas cada lágrima valeu a pena quando vimos nossa filha chegar.”

Outro obstáculo foi após o nascimento de Malu. Diante de emoções tão intensas, como ansiedade, medo de não dar conta e as expectativas de serem mães perfeitas, Bárbara enfrentou uma depressão pós-parto que tornou os primeiros meses mais difíceis. “Aquela imagem romantizada da maternidade perfeita começou a desaparecer e, no lugar, veio uma tristeza profunda misturada à preocupação constante em proteger a Malu”. 

Entretanto, depois desse período, ambas se reencontraram como família e hoje olham para trás com orgulho da força que tiveram. Para elas, a maternidade foi um divisor de águas que mudou a forma como enxergam a vida, o tempo e as prioridades. Atualmente, em uma rotina leve, divertida e cheia de afeto, Bárbara e Tatiana compartilham com Malu, além de piqueniques no Parque da Cidade, encontros com um grupo de dupla maternidade — uma forma de a filha se reconhecer e crescer enxergando a própria história com orgulho e naturalidade.

O casal conta as experiências vividas na criação da filha Maria Luísa

A MÃE-AVÓ

Para outras mulheres, a maternidade surge de maneira inesperada. Dirce Gonçalves de Queiroz (57) cria os dois netos, Lorena e Dênis, de nove e treze anos, respectivamente. Dona de casa e com um marido aposentado, Dirce conta que as crianças chegaram para ela há cinco anos, depois que um acidente de trânsito levou a vida da mãe biológica, ex-nora de Dirce.

“Eu já estava sem crianças em casa, porque tinha acabado de casar a última filha que morava comigo. O pai deles é meu filho, mas ele já estava casado e tinha outra família. Com a casa pequena, não caberia todo mundo, então as crianças vieram morar comigo desde o velório da mãe”, relata a avó.

Dirce explica que, no começo, não foi fácil. “A partir do momento em que eles chegaram, se tornou uma coisa nova e tive que começar tudo de novo. Tinha um sentimento de que não iria conseguir e mudou totalmente minha rotina, porque passei a ter uma obrigação, precisei transferi-los da escola, a Lorena estava na Apae de Itupeva e tive que ir atrás para mudar para Jundiaí. Mas, aos poucos, fomos nos adaptando”.

Hoje, a principal dificuldade é mantê-los no caminho certo em um mundo cada vez mais destrutivo. “Eu os ensinei, eduquei, coloquei na vida religiosa, mas tenho medo da violência, das drogas, da sexualização precoce e todas as maldades que cercam os jovens. Mesmo assim, eu consegui. Eles são crianças maravilhosas e fazem minha vida e a do meu esposo melhor. Não sei mais o que seria de mim sem eles em casa”.

Dirce Gonçalves assumiu a criação dos netos e descobriu uma nova forma de viver a maternidade

CAMINHAR SOLO

Há ainda aquelas que precisam adaptar o próprio sonho. Aline Bertaglia (38) é mãe do Lucas, de sete anos. Ela explica que o filho foi uma criança planejada e muito desejada — o que não foi planejado, porém, foi seguir a maternidade solo. Mesmo assim, Aline reforça que o amor pelo filho sempre transbordou qualquer dificuldade. “O desafio é a insegurança de não saber se estou fazendo o certo, mas Lucas é minha prioridade. O que me fortalece é saber que tenho quem me espere todos os dias, com um sorriso no rosto e demonstrações de carinho e saudade.”

Para Aline, ser mãe é oferecer, sem querer absolutamente nada em troca. Mas ela reforça a importância de se reconhecer como pessoa, acima do papel de mãe. “Dentro das minhas possibilidades e da minha rede de apoio, também me permito a me permitir. É preciso cuidar de mim mesma para cuidar de quem precisa de mim.”

E deixa um recado final: “Somos muito capazes. Não somos coitadas! Não se fazem necessários julgamentos e, muito menos, preconceitos. Meu sonho é ver meu filho crescer com autonomia, respeito e amor, sabendo que tem uma mãe que nunca desistiu — nem dele, nem de si mesma”.

Aline Bertaglia relata as experiências de criar o filho com amor e autonomia

Como mães, as dores, as dificuldades e os receios serão muito parecidos, assim como os desejos de que os filhos cresçam com orgulho de suas histórias e conquistem os próprios sonhos. É nas alegrias, porém, que essas mulheres se diferenciam: cada uma guarda dentro do coração uma memória, um sorriso, um aprendizado, um momento compartilhado com os filhos que é único e as faz se enxergarem como as mães que são.