07 de maio de 2026
OPINIÃO

Além do arco-íris


| Tempo de leitura: 3 min

Começo o dia ouvindo “Somewhere Over The Rainbow” composta por Harold Arlen e Yip Harburg para o filme O Mágico de Oz (1939), cantada por Judy Garland. O filme e a música me dizem muito ao coração.

“Em algum lugar além do arco-íris/ Bem lá no alto/ Há uma terra de que eu ouvi /Uma vez em uma canção de ninar (...)/ Céus são azuis/ E os sonhos que você ousa sonhar/ Realmente se tornam realidade/ Algum dia, eu vou desejar uma estrela/ E acordar onde as nuvens estejam muitíssimo atrás de mim(...)/É onde você me encontrará/ Em algum lugar além do arco-íris/ Pássaros azuis voam/ Pássaros voam sobre o arco-íris...”

Nesta semana, ganhei de presente do Alessandro Rodrigues de Souza, que foi aluno de nossa mãe na Casa da Fonte, o primeiro quadro dele – feito em tapeçaria -, creio que iniciado em 2019, projeto e orientação dela, que tinha por ele muito carinho. No término do quadro, ela não estava mais, e ele contou com a maestria e o coração da Rose Ormenesi, professora de artesanato. Por incrível que pareça, ao sair do espaço para ir embora, um arco-íris se destacava em meio a nuvens.

Lembrei-me dela sentada na minha cama, ao lado do computador, a fim de que eu lhe mostrasse diferentes desenhos de arco-íris, escolha dele para bordar.

Estivemos juntas por sessenta e seis anos e meio meus e, sem dúvida, para que eu dormisse, ainda bebê, ela cantava “Em algum lugar além do arco-íris”, como profecia de que um dia não estaríamos mais fisicamente juntas.

Nosso pai e ela gostavam de cantar juntos essa canção e da história que diz das virtudes descobertas pelos personagens: o espantalho encontra inteligência e sabedoria; o homem de lata, empatia e amor; o leão, covarde, coragem e fortaleza...

Dentre as recordações, um dos primeiros poemas que li de Cecília Meireles, “Epigrama 14”: “Pelo arco-íris tenho andado. / Mas de longe, e sem vertigens. / E assim pude abraçar nuvens, / para amá-las e perdê-las. / Foi meu professor um pássaro, / dono de arco-íris e nuvens, / e de asas que se/ comunicam/ com as/estrelas”. Amor e efemeridade no perder as nuvens. Mas é possível ir em busca, ao andar pelo arco-íris.

Nesta semana, preparação para o “Dia das Mães”. Melancolia e esperança se revezam, mas creio com firmeza no reencontro porque o Senhor é bom e misericordioso.

Há um outro poema, com o título de “Arco-íris”, que me emociona: “Nós somos Dons Quixotes/ Em cavalos de sonho vamos/ Por toda parte da cidade/ Semeando palavras como sementes/ Dividindo o pão do bem mostrando caminhos/ Levando esperanças a quem não tem. / Nós somos Dons Quixotes não importa/ De sonhadores o mundo tem precisão/ A vida será céu quando todos os homens/ Trouxerem as estrelas aqui pro chão” do escritor Carlos de Assumpção.

Nossa mãe foi Dom Quixote na Casa da Fonte, o que também a transformou em seu olhar e escolhas, como disse meu irmão, quando foi inaugurada uma placa no local, pela CSJ, em homenagem póstuma.

O convívio com o povo do Jardim Novo Horizonte e entorno deu-lhe mais anos de vida.         Tudo isso é Deus que acena, mostrando que o sentido das existência humana e a razão da morte se encontram em ser peregrino no caminho para o Céu, onde a vida é para sempre. 
 
Maria Cristina Castilho de Andrade, professora e cronista