Há um fenômeno que atravessa o cotidiano social e molda a percepção coletiva da realidade: a sensação de algumas pessoas de que tudo vai mal.
Infelizmente, isso impede o bom debate. Ele deixa de ser espaço de construção de compreensão e vira campo de reafirmação de angústias. A crítica assume uma forma inflamada, mesmo desproporcional, marcada por uma virulência que rejeita qualquer dado que não confirme a percepção já consolidada.
E isso se deve, sim, à como a comunicação e a circulação da informação são feitas. A lógica algorítmica das redes sociais favorece conteúdos que provocam reação imediata: indignação, medo ou revolta. A repetição constante de conteúdos negativos forma uma espécie de clima emocional coletivo, no qual a exceção passa a ser percebida como regra e o episódio isolado ganha dimensão de estrutura permanente.
Quando se observa o caso brasileiro, emerge uma tensão particularmente interessante. Mesmo os indicadores econômicos recentes apontando avanços relevantes em áreas como emprego formal, crescimento do PIB e estabilidade relativa de alguns índices, produzidos por instituições que operam com metodologias reconhecidas internacionalmente, são invalidados ou desprezados.
Uma parcela significativa da população manifesta a convicção de que o país atravessa um dos piores momentos de sua história.
Mas como? Essa dissociação entre indicadores científicos e percepção revela uma questão mais profunda: a vida concreta das pessoas não se resume à leitura dos grandes números. Dado exige mediação, interpretação, tempo, enquanto a emoção oferece resposta imediata e sensação de certeza. A experiência cotidiana se constrói no âmbito do particular: o preço do alimento no mercado do bairro, o tempo de espera em um hospital, a insegurança ao caminhar à noite, a dificuldade de projetar o futuro com alguma estabilidade. E não em economês.
Ou seja, aquestão central deixa de ser apenas se os números estão corretos e passa a ser se eles conseguem traduzir, com fidelidade suficiente, aquilo que as pessoas vivem.
Ora, durante muito tempo, o desejo coletivo esteve fortemente associado a melhorias materiais mensuráveis: renda, emprego, acesso a bens e serviços. Mas as pessoas buscam também e cada vez mais estabilidade emocional, previsibilidade, reconhecimento, pertencimento e sentido. Com isso, a percepção de que o mundo vai mal está ligada à sensação de perda de controle sobre a própria vida e à dificuldade de encontrar referências sólidas em um ambiente que muda rapidamente, graças à velocidade das transformações tecnológicas, culturais e econômicas que produz uma experiência de instabilidade contínua, não facilmente capturada por indicadores tradicionais.
Nesse contexto, a crítica generalizada pode ser compreendida como uma forma de expressão de inquietação profunda. Revela uma necessidade de escuta mais qualificada, capaz de integrar o dado técnico à experiência concreta. A reconstrução da confiança pública passa por um esforço de tradução entre esses dois níveis.
E isso é urgente.
Samuel Vidilli é cientista social