Entre 2022 e 2024, escrevi dois livros sobre a saga de famílias de imigrantes italianos que se fixaram em Jundiaí. Na verdade, eram sobre a minha própria família. Tarefa inicialmente árdua, pois das três primeiras gerações que chegaram ao Brasil, já não havia mais ninguém vivo. Restaram apenas as histórias — e os herdeiros dessas histórias. Coube a mim a reconstrução dessa trajetória a partir das lembranças da quarta geração.
Ao longo desse processo, fiz uma descoberta que, para mim — pouco familiarizado com a história oral — foi particularmente reveladora: eu não estava apenas recolhendo fatos, mas estava lidando com versões. Descobri que a memória não é um espelho fiel dos fatos. Ela é construída. Cada depoimento coletado trazia uma narrativa própria, marcada pelas experiências de quem falava. Um mesmo episódio era visto com diferentes olhares. Assim, percebi que um mesmo acontecimento podia ganhar múltiplas versões, por vezes até contraditórias, moldadas pelas trajetórias individuais de cada um.
Heródoto já dizia que a memória é frágil e evanescente e que quando alguém evoca o próprio passado, muitas vezes esquece os fatos e, lembrava-se de coisas que só aconteceram no universo paralelo dos desejos.
Fernando Pessoa expressa essa ideia com precisão: “As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.” Em outras palavras, nossas lembranças não são apenas registros do que vivemos, mas interpretações a partir daquilo que nos tornamos.
Mas, é bom ressaltar, que as histórias que eu recolhia não eram falsas — eram humanas. Cada lembrança carregava um pedaço da vida de quem a contava. Não era o passado em estado puro, mas o passado filtrado pela experiência, pelas perdas, pelas escolhas, pelos afetos.
O filósofo Ernst Cassirer, em “Ensaio sobre o Homem”, afirma que a memória não é simples repetição do passado, mas sua recriação. Nela o homem reconstrói sua experiência. A imaginação, nesse processo, torna-se um elemento necessário da verdadeira lembrança.
Essas descobertas me fizeram compreender como a memória funciona em mim e como eu elaboro as lembranças a partir das minhas próprias experiências. É interessante os caminhos seguidos pela memória na fixação das nossas lembranças
No final, além de resgatar a história de duas família, compreendi algo mais profundo: uma maneira de entender as minhas lembranças. Percebi que recordar não é apenas revisitar o que foi, mas reconstruir, a cada vez, o sentido daquilo que vivemos. Percebi que minhas memórias também são versões — não mentiras, mas interpretações.
Porque, se a memória é uma construção, então o passado não está apenas atrás de nós. Ele continua sendo feito — cada vez que o lembramos.
Francisco Carbonari foi secretário de Educação em Jundiaí