03 de maio de 2026
OPINIÃO

O grande dilema nas eleições


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Muito se falou nas últimas semanas sobre o endividamento recorde das famílias brasileiras. Talvez um dos grandes entraves das eleições e que corrobora para a queda de popularidade do presidente Lula. Acho interessante que somente agora os políticos brasileiros acordaram para essa política de juros e de endividamento público que só trazem prejuízos aos cidadãos. Ou será que só estão preocupados com o resultado das urnas?

Além das dívidas, que corroem o bolso dos brasileiros comuns, a ascensão social no Brasil segue sendo um dos maiores desafios estruturais do país — e os dados deixam claro que não se trata apenas de esforço individual, mas de um sistema que ainda reproduz desigualdades de origem.

Estudos recentes mostram que o Brasil está entre as nações com menor mobilidade social do mundo. Na prática, isso significa que a renda e as condições de vida dos pais continuam sendo um forte determinante do futuro dos filhos. Crianças que nascem em famílias de baixa renda têm chances significativamente menores de alcançar melhores posições econômicas ao longo da vida.

Um dos indicadores mais contundentes dessa realidade é a probabilidade de ascensão ao topo da pirâmide social. Entre os brasileiros que nascem na metade mais pobre da população, menos de 2% conseguem chegar aos 10% mais ricos. O dado revela um cenário de baixa fluidez social, no qual o topo permanece restrito e pouco acessível.

Além disso, o tempo necessário para subir na escala de renda é longo. Estimativas internacionais apontam que um brasileiro em situação de pobreza pode levar até nove gerações para atingir a renda média do país. Em comparação, em economias mais desenvolvidas, esse processo costuma levar entre duas e cinco gerações, evidenciando o atraso estrutural brasileiro nesse aspecto.

Grande parte dessa dificuldade está relacionada à desigualdade de oportunidades. Fatores como escolaridade dos pais, acesso a serviços básicos, localização geográfica e contexto familiar ainda exercem enorme influência sobre as trajetórias individuais. Em outras palavras, o ponto de partida importa — e muito.

Embora o acesso à educação tenha avançado nas últimas décadas, isso não foi suficiente para romper o ciclo de desigualdade. A qualidade do ensino, as diferenças regionais e o acesso desigual a redes de relacionamento e oportunidades profissionais continuam limitando o impacto transformador da educação.

Outros fatores também aprofundam essa barreira. Questões raciais, de gênero e territoriais seguem marcando diferenças importantes nas chances de mobilidade. Populações negras, moradores de regiões mais pobres e mulheres, em média, enfrentam obstáculos adicionais para melhorar sua condição socioeconômica.

Diante desse cenário, o debate sobre ascensão social no Brasil precisa ir além do mérito individual e avançar sobre políticas públicas e iniciativas que ampliem, de fato, a igualdade de oportunidades. Sem isso, o país corre o risco de perpetuar um modelo em que o destino econômico de uma pessoa continua sendo definido, em grande medida, pelo lugar onde ela nasce. E não me venham falar de meritocracia. Isso só existe para filhos de ricos.

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ