03 de maio de 2026
OPINIÃO

Jundiaí e suas águas


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A escassez hídrica é um problema planetário. O deserto avança por boa parte do globo. Há cidades como Teerã, a capital do Irã, que, além dos conflitos bélicos, enfrenta um colapso que a faz pensar em evacuação e transferência de sua gente para a região da orla. A única alternativa será a dessalinização.

O Brasil não é diferente. Aquele verdadeiro paraíso do século XVI foi sendo devastado com inclemente eficiência. Desperdiçamos o nosso maior patrimônio e nos especializamos em fabricar desertos.

Não é muito remota a possibilidade de tal degradação chegar também à maior cidade do Brasil, a São Paulo de quase treze milhões de habitantes, cujo único reservatório abastecido com nascentes locais, a Guarapiranga, está a perder profundidade e ganhar contaminação. Isso resulta do despejo de esgoto in natura, que vem acompanhado de cocaína, resíduos fármacos e microplásticos. O que os paulistanos farão, quando lhes faltar água para beber? Hoje a situação é de colapso, muito mais crítica do que na crise de 2014-2015.

Jundiaí foi bem servida pela natureza, com o rio que lhe dá o nome, o Jundiaí-Mirim e o Guapeva. A Serra do Japi, enquanto preservada – o melhor é que fosse continuamente ampliada em seu entorno – poderá servir de verdadeira “caixa d’água”. Todavia, é preciso convencer toda a população de que a receita para garantir água e vida é plantar árvores. A árvore é a melhor amiga da vida.

O Professor José Goldemberg, o maior físico brasileiro e um dos mais respeitados cientistas do planeta, diz que somos privilegiados porque dispomos da mais eficiente tecnologia para reequilibrar o clima: o plantio de espécies arbóreas. Isso porque a árvore presta um serviço ecossistêmico gratuito e imprescindível. Sequestra carbono, o veneno causador do aquecimento global e devolve oxigênio puro. Reduz a temperatura, num estágio terrestre em que o calor está matando mais do que o frio. Serve de abrigo para a fauna silvestre. Fomenta a polinização. Oferece não apenas sombra, mas beleza estética e paisagística.

Fosse a humanidade tão racional como gosta de propalar, seria a maior defensora e incentivadora das árvores. Nada obstante, é comum o pedido de remoção de árvores dos logradouros públicos. A ignorância encontra na presença de árvores apenas os incômodos: quebra da calçada, queda de folhas, esconderijo de bandido.

Para garantir água para uma população que só cresce, toda cidade deveria investir no maciço plantio de bosques, florestas, lotar as ruas com indivíduos arbóreos. Fomentar a coleta de sementes, ensinar as crianças, desde cedo, a observar o fenômeno da germinação, a formar viveiros, a exercer a zeladoria cidadã do patrimônio constituído de árvores adultas e a cultivar uma cultura de respeito e apreço à vegetação.

Mais ainda, para não ficar sem água, Jundiaí precisa ter a coragem de despoluir rios, córregos, riachos e quaisquer cursos d’água. Ressuscitar aqueles que a cultura automobilística sacrificou em favor dos veículos, hoje os maiores causadores do aquecimento global, pois abastecidos com diesel e gasolina.

Depois, uma cidadania realmente ativa e ecologicamente ética deveria cuidar melhor de seus resíduos sólidos. Não é admissível a crescente produção daquilo que chamávamos “lixo” e que hoje, por ter valor econômico, chamamos de “resíduos sólidos”. Somos uma população que consome demais, desperdiça demais e não sabe destinar adequadamente aquilo que desperdiça.

Tudo isso contribui para que Jundiaí trate suas águas com o respeito devido. Pois sem petróleo, pode-se viver. Sem água, não!

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo