02 de maio de 2026
OPINIÃO

Etecs e Fatecs em risco


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O governo de Tarcísio de Freitas vem promovendo uma transformação silenciosa e pouco transparente no modelo de educação profissional paulista, com o esvaziamento gradual do Centro Paula Souza, responsável pelas Etecs e Fatecs. O que está em curso não é uma reconfiguração administrativa, mas o enfraquecimento de uma estrutura construída ao longo de décadas.

Em Jundiaí, os efeitos dessa política têm impacto direto em instituições como as Etecs Benedito Storani e Vasco Antônio Venchiarutti, referências na formação técnica regional, assim como na Fatec Jundiaí, que cumpre papel estratégico na qualificação de nível superior. Juntas, essas unidades têm contribuído para o desenvolvimento econômico local, formando bons profissionais para o mercado.

Mesmo com o histórico positivo, o modelo hoje é subfinanciado. Para manter o investimento por aluno registrado nos anos 2000, o orçamento de 2026 do Centro Paula Souza para o Estado deveria ser de R$ 6,8 bilhões, mas o valor previsto é cerca da metade desse total. Resultado: perda de profissionais qualificados, aumento da rotatividade docente, sobrecarga de trabalho e deterioração das condições de ensino.

Enquanto sucateia o Centro Paula Souza, o governo Tarcísio aposta na expansão de vagas técnicas via escolas regulares da rede pública, com forte concentração em cursos de baixo custo, pouca exigência de infraestrutura e sem a mesma qualidade. Dados da Secretaria da Educação indicam a criação de apenas 84 laboratórios em um universo de mais de 3,7 mil escolas no Estado. O número é baixo e evidencia a limitação da estratégia.

A escolha é política, porque o dinheiro existe. Ao aderir ao programa federal de reestruturação da dívida dos Estados, São Paulo se comprometeu como contrapartida a investir 60% do valor economizado na expansão do ensino técnico. Com um alívio estimado em R$ 12 bilhões em 2026, a cifra com esse carimbo é de R$ 7,2 bilhões. Desse total, só R$ 258 milhões devem chegar ao Paula Souza.

Na prática, o governo Tarcísio prioriza modelos mais baratos e de rápida expansão, em detrimento de estruturas consolidadas e reconhecidas pela qualidade. Em Jundiaí, onde a economia local depende de mão de obra qualificada em níveis técnicos avançados, formações superficiais se tornam um problema e podem enfraquecer a competitividade regional.

O risco, portanto, vai além da educação. Ao enfraquecer o Centro Paula Souza, o governo Tarcísio compromete um dos pilares do desenvolvimento de cidades. A estratégia pode até inflar estatísticas no curto prazo e gerar narrativas positivas à atual gestão, mas cobra um preço alto no futuro. Porque desmontar um sistema de qualidade é rápido. Reconstruí-lo pode levar décadas.

Mário Maurici de Lima é jornalista, ex-vereador e ex-prefeito de Franco da Rocha. Foi vice-presidente da EBC e presidente da Ceagesp. Atualmente, é primeiro secretário da Assembleia Legislativa de São Paulo