26 de abril de 2026
OPINIÃO

A vida que nos favorece


| Tempo de leitura: 3 min

Eu nunca tinha pensado em jornalismo como sacerdócio, como entrega total, até me dar conta de que faço, etse ano, 34 anos de formada e quase 40 de profissão. Reparei que sou uma dinossaura do jornalismo, quando a maioria dos meus amigos - jornalistas incríveis - já fizeram sua passagem. Antes do tempo, diria eu.

Não teria feito nem metade do que fiz, nem viajado tanto, nem entrevistado o Dalai Lama, que me promoveu a maior mudança real na minha vida, que é me tornar budista. De uma outra linhagem que a sua, é verdade, mas uma linhagem que trouxe verdades orientais a este mundo besta, ocidental, em que as pessoas não querem se desenvolver, melhorar e viver uma verdadeira vida espiritual.

É claro que tudo na vida traz os custos. O meu, de tanto trabalhar sentada, digitando, fortes dores na coluna e uma hérnia de disco. Mas o jornalismo me proporcionou o contato com as mais diversas pessoas e isso me abriu os horizontes.

Me abriu tanto a mente, que eduquei meus filhos para saberem que foram privilegiados. Neste país escravagista como o nosso, ter acesso à educação e saúde privadas é um luxo. Todos os dias passam por mim tantas misérias! Mulheres que morrem espancadas por maridos, mulheres de todas as classes sociais que sofrem violência, crianças que estão matriculadas nas redes de ensino, que possuem alguma deficiência, e que são tratadas como sacos de batatas, sem direito a progredir nem que seja o mínimo,com autonomia e respeito.

Todos os dias vejo pessoas sendo tratadas como descartáveis em postos de saúde e hospitais. Sem o mínimo de dignidade humana, como se o fato de estarem no sistema público não lhes garantiu o que nos é de direito: o retorno de nossos caríssimos impostos, pagos religiosamente por trabalhadores como nós.

E, mesmo que nossos braços sejam pequenos para tanta miséria, o jornalismo tem de fazer sua parte, que é escancarar o que está mal feito e contribuir para o que pode melhorar.

Sou do tempo em que se eu publicasse um buraco de rua no jornal, no outro dia ele estava arrumado, com pedido de desculpas. Hoje, estamos tão descolados da realidade, que nada é feito.

Falo isso porque me dói ver a tristeza humana, da violência que brota dentro das famílias. Relações tóxicas, que se misturam afeto ao poder, ao controle. Não estamos evoluindo, estamos voltando à idade das pedras, em que só sobrevivem àqueles que aprendem a matar. Suas companheiras, filhos e parentes.

Tempos difíceis. Mas, como eu estava em retiro budista, fiquei maravilhada mesmo quando os monges nos remetem à reflexão sobre a nossa preciosidade. Como é preciosa nossa vida humana! Não há garantia que um dia poderemos tê-la de volta! Então, é preciso garantir que saiamos melhor nesta vida, como seres humanos, seres atuantes na sociedade e na família.

Eu posso até estar errada, mas em todas as religiões que estudei, e não foram poucas, só há uma verdade. A salvação está em aprender a apreciar o outro.

E é nessa condição que inicio o domingo. Aprecie o próximo. Diga palavras lindas ao vizinho, elogie quem precisa de elogio, ame os seres humanos sem distinção, faça seu trabalho voluntário. Porque há outra verdade budista na vida: pode ser que eu morra hoje e eu tenho de deixar o meu coração em paz antes da única passagem que todos os seres humanos farão, da mesma forma, sem distinção de credo, etnia ou gênero.

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ