Acompanhar de perto a jornada de um aluno é, muitas vezes, testemunhar muito mais do que um processo físico. É enxergar o ser humano em sua totalidade, com suas dores, medos, expectativas e, sobretudo, com sua capacidade de transformação.
Recentemente vivi no estúdio um caso que me marcou profundamente e que traz uma reflexão importante sobre algo que ainda é pouco valorizado na saúde: o poder da mente e da fé no processo de cura. Esse aluno chegou com um quadro de capsulite adesiva (conhecido como ombro “congelado”), uma condição conhecida por sua evolução imprevisível e, muitas vezes, dolorosa e limitante.
É uma lesão que costuma seguir um curso difícil, com fases que podem se intensificar antes de melhorar, exigindo paciência, estratégia e um trabalho consistente. Sugerimos uma equipe multidisciplinar ao redor dele. Eu, como educadora física, atuando na manutenção da mobilidade e na preservação funcional do ombro, uma fisioterapeuta, amiga querida, conduzindo o controle da dor, outra profissional entrou com ondas de choque e um colega contribuiu com eletroestimulação. Todos alinhados, comprometidos, ajustando condutas, tentando oferecer o melhor caminho possível.
Ainda assim, algo não evoluía como gostaríamos. E isso, para quem cuida, também pesa. Existe um envolvimento genuíno, uma vontade de aliviar, de resolver, de devolver qualidade de vida.
Foi então que algo mudou. De forma muito consciente, ele percebeu que precisava assumir um papel ativo no próprio processo, que era necessário ajudar os profissionais envolvidos. E essa virada não foi física, foi interna. Ele decidiu que não seria mais um espectador da sua recuperação. Passou a organizar seus pensamentos, a trabalhar sua mente, a direcionar sua energia para a cura. Começou a estabelecer, de forma intencional, um diálogo com o próprio corpo. Como alguém que, enfim, entende que não está separado dele.
A partir desse momento, o que vimos foi surpreendente. A evolução ganhou outro ritmo. O quadro não atingiu o ápice esperado. A progressão da capsulite foi interrompida antes da fase mais crítica. Houve melhora de dor, ganho funcional e, principalmente, uma mudança de postura diante do processo. Ainda há um caminho a percorrer, mas o curso da história mudou.
Esse caso não anula a importância dos tratamentos, da ciência ou da equipe multidisciplinar. Pelo contrário, reforça o quanto tudo isso é essencial. Mas traz à tona um elemento muitas vezes negligenciado: o protagonismo do paciente. A capacidade de influenciar o próprio organismo por meio de pensamentos, crenças e estados emocionais.
A ciência já nos mostra, por meio de diversos estudos, os efeitos do chamado placebo, que nada mais é do que a resposta do corpo a uma crença. Mas aqui não estamos falando apenas de acreditar em um tratamento. Estamos falando de intenção, de direcionamento mental, de engajamento profundo com o próprio processo de cura.
Quando uma pessoa decide participar ativamente da própria recuperação, algo muda em níveis que vão além do que conseguimos medir facilmente. O corpo deixa de ser passivo e passa a responder de forma mais integrada.
Talvez o maior aprendizado desse caso seja justamente esse: nenhum tratamento é completo sem a participação de quem está sendo tratado. A equipe cuida, orienta, conduz. Mas existe um ponto em que a virada acontece de dentro para fora.
A fé, nesse contexto, não precisa estar vinculada a uma religião. Ela pode ser entendida como confiança, como intenção, como a capacidade de acreditar que o corpo pode encontrar caminhos de reorganização. E quando essa fé se une à ação, ao cuidado e ao suporte profissional, os resultados podem ir além do esperado.
Esse aluno nos ensinou algo que levarei para sempre na minha prática: a cura não é algo que se entrega. É algo que se constrói, em conjunto, mas com participação ativa de quem mais importa nesse processo. Muita saúde a todos.
Liciana Rossi é especialista em coluna e treinamento corretivo, pioneira do método ELDOA no Brasil