18 de abril de 2026
OPINIÃO

Sesta” não é preguiça!


| Tempo de leitura: 3 min

Existe um momento do dia que, silenciosamente, determina a qualidade do restante dele. Um momento negligenciado por muitos, mas profundamente respeitado por culturas milenares. Após o almoço, o corpo humano naturalmente desacelera. E isso não é preguiça, é fisiologia.

Ao nos alimentarmos, há um redirecionamento do fluxo sanguíneo para o sistema digestivo, enquanto o sistema nervoso parassimpático assume protagonismo. Esse é o sistema responsável pelo repouso, pela digestão e pelos processos de regeneração. Paralelamente, o nosso ritmo circadiano apresenta uma queda natural de alerta no início da  tarde. Ou seja, existe uma convergência biológica clara sinalizando que o corpo precisa de uma pausa.

Respeitar esse momento com uma breve soneca, a famosa sesta, ou siesta em espanhol,
 pode ser uma das estratégias mais simples e eficazes para otimizar o funcionamento cerebral. Estudos consistentes mostram que cochilos curtos, de 15 a 30 minutos, promovem melhora significativa do foco, atenção, memória e capacidade de tomada de decisão. É como se o cérebro passasse por um processo de reorganização interna, reduzindo a sobrecarga neural acumulada e restaurando sua eficiência. Não se trata de dormir por necessidade, mas de recuperar por inteligência.

Outro ponto fundamental é o impacto direto sobre o estresse. Durante a soneca, há uma redução dos níveis de cortisol, o principal hormônio relacionado ao estado de alerta crônico. Em um cenário onde a maioria das pessoas vive em hiperestimulação constante, esse pequeno intervalo funciona como um verdadeiro reset do sistema nervoso. O resultado é uma mente mais clara, menos irritabilidade e uma sensação real de equilíbrio emocional ao longo do dia.
Mas os efeitos não se limitam a curto prazo. A ciência também aponta associações entre o hábito regular de uma soneca breve e a proteção da saúde cardiovascular, além de benefícios no envelhecimento cerebral. O descanso diurno atua como um modulador da carga fisiológica total do organismo, ajudando a compensar déficits do sono noturno e reduzindo o desgaste acumulado ao longo dos anos. É uma estratégia de longevidade, acessível e subestimada.

No entanto, como toda ferramenta poderosa, a eficácia está na dose. Cochilos prolongados, especialmente acima de 60 minutos, podem levar à chamada inércia do sono, aquela sensação de confusão ao acordar, além de prejudicar o início do sono noturno. O objetivo não é mergulhar em sono profundo, mas oferecer ao cérebro um intervalo suficiente para recuperação sem desorganizar o ciclo natural do corpo.

E aqui está um ponto essencial: mesmo quando não é possível dormir, a pausa  ainda é válida. Deitar ou sentar, fechar os olhos, desacelerar a respiração e permitir alguns minutos de silêncio já são suficientes para induzir mudanças fisiológicas relevantes. O sistema nervoso responde rapidamente a esse tipo de estímulo, reduzindo o estado de alerta e promovendo regulação interna.

Talvez o maior desafio não seja encontrar tempo, mas mudar a forma como enxergamos o descanso. Vivemos em uma cultura que glorifica a exaustão e confunde movimento constante com produtividade. No entanto, o verdadeiro desempenho sustentável nasce da alternância entre estímulo e recuperação. Pausar não é retroceder, é avançar com mais inteligência.

Incorporar a soneca pós almoço, ou ao menos um momento consciente de pausa, é um convite a alinhar a rotina com a biologia. Pequenas escolhas, repetidas diariamente, têm o poder de transformar profundamente a saúde ao longo do tempo. E, muitas vezes, aquilo que parece simples é justamente o que mais falta. Muita saúde a todos.

Liciana Rossi é especialista em coluna e treinamento corretivo, pioneira do método ELDOA no Brasil