Raramente me recordo dos sonhos que tive. Pesadelos são de minha adolescência. Acordava impactada, levantava e me dirigia aos nossos pais, que assopravam meus medos.
Há poucos dias, passei por um sonho interessante. Estávamos, mamãe e eu, no apartamento de meu irmão. Ele e a Regina haviam saído, bem como o Felipe e a Renata. O prédio, no entanto, em lugar de São Paulo, era aqui em Jundiaí, na rua Vigário J.J., perto do calçadão São José.
A mamãe surgiu na sala com uma bolsa de estampa com flores e um casaco branco nas costas. Disse-me que estava indo. Acenei que sim com a cabeça.De repente, me dei conta de que não deveria deixá-la ir sozinha. Possuía limites. Desci depressa, saí na calçada, olhei para os dois lados e não a localizei. Não conseguiria andar tão rápido. O porteiro me disse que ela já fora.
Sem saber como, deparei-me na Estação de Jundiaí. O trem não estava mais. Do alto falante, ouvi uma voz semelhante à de meu pai: “Há partidas em que não é possível ir junto”.
Acordei emocionada. Bem verdade, chega um tempo em que as despedidas são individuais. Mesmo no sonho, com minha onipotência, na crença de que necessitava continuar velando por minha mãe, embora ela jamais permitisse ser “aprisionada” por alguém. Aceitava seus limites, mas sem perder sua autonomia, seu livre-arbítrio.
Lembrei-me de quando comecei minha vida profissional no Sesi de Vinhedo. Viajava de trem. Meus pais faziam questão de me levar à Estação. Quantas vezes, no entanto, ao final da tarde, lá estavam eles com a perua Skoda, para me buscar e eu me derretia toda.
Se eles não fossem, voltava de ônibus, que percorria a estrada velha de Louveira, ainda de terra. Sou antiga. Uma das vezes, o senhor, que sentou ao meu lado, colocou no porta-pacotes um saco de cinco quilos de fubá. No meio da viagem, o saco rasgou e veio tudo na minha cabeça. Foi engraçadíssimo. De banho vencido, suada com o calor dentro do ônibus apinhado de gente, senti-me um mingau.
O proprietário, ao mesmo tempo que me pedia desculpas se lamentava: era fubá feito à moda antiga. Secavam o milho e, em seguida, era ele moído manualmente. Depois, peneiram para obter uma farinha fina e clara. Foi um fato engraçado. Nós dois acabamos rindo. O ônibus parava perto da Galeria Bocchino e, naquele dia, até chegar em casa, fiquei com jeito de assombração.
Amava o trem, a equipe da escola, os alunos e essa gente simples que entrava e saía no percurso, carregada de pureza.
Dentre os alunos, ficou-me o de olhos verdes doloridos, a unha roída, que me esperava na estação, antes da aula. Não conversava. Apenas acompanhava-me. Havia entre nós um silêncio de ternura. O pai matou a mãe, numa noite de chuva – já comentei sobre ele -, ao voltar para casa a fim de comprovar aquilo que diziam, e ele e a menor esperaram amanhecer, em meio à luz dos relâmpagos, ao lado do cadáver materno.
Na mudez, meu coração chorava por ele e o coração dele repousava em meus ombros.
Passou o tempo, os acontecimentos, as pessoas... Alguns já viajaram em horários diferentes. Outros permanecem até que o som da locomotiva traga seu nome. E a sabedoria está em acenar, com os olhos no Céu, na certeza do reencontro.
Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista