14 de abril de 2026
OPINIÃO

'Nuremberg' é um filme de terror


| Tempo de leitura: 4 min

A sala de cinema "Número 5" do Shopping Villa Lobos, na zona oeste da capital paulista, é modesta, mas possui charme e conforto. Pouco mais de 100 poltronas grandes e confortáveis dispostas em uma sala plana, dão um ar intimista para o recinto, porém a tela gigantesca me recordava que eu veria algo grandioso.

"Nuremberg" foi o filme escolhido por mim. Desde quando eu assisti ao seu trailer há alguns meses, fiquei empolgado para vê-lo. O primeiro motivo é pela temática. Filmes sobre o nazismo têm a minha atenção desde que eu estudei o cinema alemão da década de 1930 e 1940 na pós-graduação em História na PUC-SP. Ler ou assistir coisas sobre o período me lembra de que sempre há o que ser dito e mostrado sobre a horrorosa ditadura de Adolf Hitler.

O segundo motivo é devido a minha última viagem à Alemanha. Tive a felicidade de visitar Nuremberg e conhecer de perto a história que o filme retrata. Tão de perto que eu pude estar no exato local onde o filme tem o seu principal foco, a sala 600 do Palácio da Justiça de Nuremberg, a sala onde os nazistas foram julgados no maior julgamento do século.

A cidade tem a maldita alcunha de “cidade nazista”. Isso porque Hitler via na cidade o cenário perfeito para sua propaganda nazi. Como Nuremberg foi, no Império Romano-Germânico (o primeiro Reich/Reino alemão), o baixinho austríaco viu a oportunidade de retomar a tradição dos encontros dos príncipes da Europa e fazer da cidade o local das reuniões do partido nazista.

Se você pesquisar “O Triunfo da Vontade” (Triumph des Willens) na Internet, vai se deparar com uma mega produção cinematográfica (para a época) sobre esses comícios. O filme-propaganda de Leni Riefenstahl foi um dos meus objetos de estudo e eu sabia bem da grandeza desses comícios megalomaníacos do Füher.

Por conta disso a destruição da cidade era primordial e simbólica. Os americanos deram cabo disso e em uma das batalhas mais cruéis de toda guerra. Sem soldados (pois na altura da guerra a maioria já estava morta), Hitler colocou os jovens da Juventude Hitlerista para morrer no front.

Mais de 90% da cidade foi destruída por causa da maior trapaça que um país já foi vítima. Hitler transformou aquele local no símbolo nazista na Alemanha, mas Nuremberg se redimiria. Se reconstruiu, tijolo por tijolo e, em alguns anos, já não deixava à vista cicatrizes da guerra. Porém era necessário também a reconstrução moral.

Essa veio mais depressa. Semanas após o fim da guerra, um julgamento foi criado para julgar os nazistas pelos crimes contra a humanidade. O Tribunal de Nuremberg mostrou para o mundo que os horrores do nazismo não ficariam em pune. O alto comando nazista foi condenado a execução. Era o fim do inferno (que recomeçaria com a guerra fria, mas conto isso quando chegar em Berlim).

O filme trata justamente disso. De como o julgamento foi pensado, montado e executado. Em paralelo, conhecemos a história do psiquiatra de Hermann Goering, o major Douglas Kelley, um oficial do exército dos EUA que tinha uma única responsabilidade: não deixar o "Número 2" do nazismo e outros nomes do primeiro escalão se matarem antes do julgamento.

A dupla Russell Crowe (Hermann Göring) e Rami Malek (Douglas Kelley) dão um verdadeiro espetáculo de interpretação com diálogos densos e de fazer todos na sala de cinema prenderem a respiração uma vez ou outra. Isso porque, o major Kelley vai desbravando a psiquê de Göring e desvendando a sua horrível conclusão que, mais tarde, viraria seu controverso livro "22 cells in Nuremberg".

O livro de Kalley foi um fracasso comercial porque contradiz a crença popular de que os réus eram demoníacos por natureza. Suas conclusões diziam que os nazistas eram apenas homens como quaisquer outros. E é essa a parte assustadora. Quando ele concluiu isso, ele nos diz que o horror pode nascer, permanecer e se enraizar a partir de pessoas comuns. Ele não relativiza o nazismo, pelo contrário, ele diz que esse comportamento pode florescer em qualquer um, basta o gatilho correto.

O major psiquiatra, no fim, tinha razão. Se olharmos o que está acontecendo no mundo com a ascensão do fascismo cada vez mais aparente e desavergonhado, vemos que para ser cruel basta ser humano. E quem é cruel acha que está correto ser, assim como os nazistas achavam, afinal de contas, ninguém é o vilão da própria história. Prova disso? Pergunte para um trumpista se ele acha errado o que está sendo feito agora na guerra contra o Irã ou para um sionista se foi errado o que eles fizeram com os palestinos em Gaza.

Eu odeio filmes de terror. Não assisto nenhum. Mas esse, mesmo não sendo do gênero, é capaz de assustar profundamente a sala de cinema simples e puramente por nos mostrar que nós estamos vivendo o filme de terror.

Felipe Schadt é jornalista, professor e cientista da comunicação