10 de abril de 2026
OPINIÃO

Tamanho não é documento


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De uma certa maneira, era uma cena insólita. Eu, homem branco, sentado em uma cadeira de madeira, por detrás de uma mesa simples e ao lado de uma estante cheia de livros, observando hipnotizado em silêncio uma pequena cápsula gelatinosa deitada na palma da minha mão.

O contraste da cena estava claro na minha cabeça, descortinado pela minha mente, já que o conteúdo daquela pequena cápsula era um conhecimento mais antigo do que tudo o que me cercava. Mais antigo que a mesa, as cadeiras… mais antigo que os livros ou mesmo o que estava escrito neles.

Dentro daquela pequena cápsula, de 150 miligramas, estava algo mais antigo que o prédio onde fica o meu consultório, que a cidade que o endereçava, que o nosso país. Encapsulada ali estava uma combinação muito específica de plantas que havia sido descrita nas páginas de um pergaminho, mais de duzentos anos antes da era comum.

A cápsula de fórmula magistral chinesa que eu segurava ali, na minha mão, era um segredo de estado do “Império do Centro”, nome antigo da china continental e tinha seu uso destinado exclusivamente ao imperador e seu séquito, que viviam dentro da cidade proibida, onde hoje está a cidade de Pequim. Fora dos muros do palácio, a produção desta fórmula poderia ser penalizada com prisão, assim me contou o meu primeiro professor de fitoterapia.

No entanto, na minha mão, a cápsula parecia o elemento mais simples de toda a cena, o que me trouxe a reflexão que deu origem ao ditado que intitula o artigo de hoje. Julgar pela aparência me parece ser a forma mais ordinária e comum de preconceito, mas que encerra em si, uma confissão da ignorância de quem a tem.

Vou explicar: dentro do estudo e metodologia que eu trabalho, todo elemento visível e material tem, em conjunto, algo que o acompanha e é intangível aos sentidos comuns, mas é atuante no resultado de “quem se é”. Funciona tal como o corpo humano, que não é só o conjunto de órgãos e vísceras do seu interior, mas sim toda a funcionalidade e expressão que advém deles e que nos faz reconhecer um corpo como “alguém”.

Sim, a própria personalidade faz parte deste “impalpável” e é muito fácil comprovar o quanto ela é presente e atuante, quando, por exemplo, uma pessoa de aparência simples ou frágil usa frases complexas ao se expressar, constrói estruturas de pensamento sólidas capazes de sustentar opiniões polêmicas, mesmo diante um árduo debate de ideias.

Diante de tal situação é comum comentar algo como “Uau! Pequenina, mas tem uma força que emerge de dentro!” ou ainda “muito decidida para a aparência frágil que tem!” – está aí o preconceito, o julgamento pelo tamanho e pela simplicidade que é apenas aparente, sendo “quebrado” e causando surpresa quando emerge toda a potência do ser.

Perde muito do contexto e do fluxo de vida quem decide ignorar esses fatos e, ao mesmo tempo, aproveita muito mais quem toma o cuidado de vê-lo nas ações do cotidiano. Com essa consciência eu não hesitei em colocar a cápsula na minha boca e engoli-la com um copo de água do bebedouro do meu consultório, sabendo que a história dentro dela me ligava com a realeza da China antiga, que outrora a tomava em forma de chá, servido em aparatos de metal nobre e adornado.

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina chinesa e osteopatia.