O estudo da neurociência me parece fascinante não somente por revelar os mecanismos pelos quais o sistema nervoso se estrutura, mas também por evidenciar o “algoritmo” pelo qual ele é guiado nas suas ações e propósitos. A sensação é semelhante a se debruçar sobre um projeto de uma casa ou prédio inusitado, ou mesmo de uma máquina misteriosa e, através deste estudo, tentar compreender a “visão” de quem desenhou o projeto, conhecendo um pouco mais do projetista. Fascinante!
O nosso sistema nervoso e o seu componente centralizador, o cérebro, não objetiva por aventuras ou explorações a fim de obter o melhor de cada situação. O cérebro preza pelo que é familiar, seguro e previsível. Pode parecer estranho à um primeiro olhar, mas manter-se estável é mais importante do que manter-se “bem”.
Por conta disso que, volta e meia, nos encontramos assumindo “posturas” que não são as melhores para a nossa saúde e integridade, pois a manutenção das “coisas” como elas estão é o caminho preferido para a sobrevivência, evitando mudanças e revoluções.
Claro, para que fiquemos em paz com estas situações conflitantes, precisamos de justificativas. Acabamos criando, então, narrativas que dão suporte às decisões que já foram tomadas automaticamente, baseadas em crenças e preconceitos antigos, os quais também temos pouca consciência.
Essas narrativas são bem comuns e vou ajudar o leitor(a) a rememorar algumas delas: “Ele é um pouco sem educação mesmo, mas eu tenho que ter paciência com ele, já que eu sei mais” – ou ainda - “Adolescentes são assim e é melhor levar este tipo de comentário como uma brincadeira” – sem esquecer da clássica - “No fundo ele quer meu bem quando me trata desta maneira”.
No último dia 1º foi o anedótico "Dia da Mentira", que eu acabei usando como tema para discutir o quanto de energia gastamos para sustentar essas frases que, além de não transmitirem a real situação sobre vários assuntos importantes (critério suficiente para classificá-las como mentiras), acabam nos colocando em risco e comprometendo a nossa integridade física e mental, apesar de em um primeiro momento parecerem até inocentes e capazes descreverem de maneira amena o que está ocorrendo.
Normalmente acabam gerando mais tolerância do que se pode admitir, limitando nossa maneira de viver e de se expressar.
A mensagem que fica é que se deve permitir o exercício de um olhar com uma certa distância emocional da nossa própria vida, de tempos em tempos, para avaliarmos a utilidade de algumas destas narrativas, percebendo se são baseadas em mais fatos ou em suposições convenientes para satisfazer nossa necessidade por coerência em ações nem tão alinhadas com nosso bem-estar.
Afinal, nosso cérebro não as valida pela “dose de veracidade” que possuem, mas pelo “sentimento de conforto intelectual” que proporcionam... frequentemente criando uma inércia que logo se prova muito onerosa para sustentar.
Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina tradicional chinesa e osteopatia