01 de abril de 2026
OPINIÃO

Ópera do malandro


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Que espetáculo! Jundiaí recebeu no último sábado, dia 28, no Polytheama, a “Ópera do malandro”, da Companhia Bravo de Teatro Musical. Por cerca de três horas, o público curtiu a montagem dirigida por Juliana Hilal, com 60 artistas no palco. Que trupe, quanto talento e beleza em cena.

Essa peça é uma adaptação que o compositor e escritor Chico Buarque fez nos anos 70 da “Ópera dos mendigos”, de John Gay e Johann Pepusch, e da “Ópera dos três vinténs”, de Bertolt Brecht e Kurt Weill. Chico levou o enredo para o Brasil da década de 1940. Conta a história dos casais Duran e Vitória, e Max e Teresinha. Duran se passa por respeitável comerciante, mas sua principal atividade é a de cafetão, agenciador de dezenas de prostitutas. Vitória, tão inescrupulosa quanto o marido, auxilia Duran. A filha dessa dupla de malfeitores é Teresinha, casada com o contrabandista Max Overseas. O larápio, conquistador e bom de papo, mantém parceria comercial com o policial Chaves. Como o título explicita, o que não falta é malandragem e corrupção.Também não faltam belezuras criadas na oficina de Chico Buarque. O desfile de canções na interpretação de tantas vozes bonitas não poderia ser outro: que ma-ra-vi-lha! “Oh pedaço de mim/oh metade afastada de mim/leva o teu olhar/que a saudade é o pior tormento (...)/ leva os teus sinais/que a saudade dói como um barco/que aos poucos descreve um arco/e evita atracar no cais”. Quem compõe “Pedaço de mim” já pode se aposentar. Mas o sujeito continua na ativa. E escreve as brejeiras e atuais “A volta do malandro” (com o antológico verso “o malandro é o barão da ralé”) e “Homenagem ao malandro”: “agora já não é normal/ o que dá de malandro regular, profissional (...) malandro candidato a malandro federal/Com retrato na coluna social (...)/ Que nunca se dá mal”. E o malandro das antigas, aquele pra valer? “Dizem as más línguas que ele até trabalha/Mora lá longe e chacoalha/ Num trem da Central”. Para não falar da dolorida “Canção desnaturada” (“Por que cresceste, curuminha/Assim depressa e estabanada/Saíste maquiada/ de dentro do meu vestido/ se fosse permitido/eu revertia o tempo/(...) te recolher pra sempre/à escuridão do ventre, curuminha”). Ou da lírica “Folhetim”: “Se acaso me quiseres/Sou dessas mulheres/Que só dizem sim (...)/Mas na manhã seguinte/Não conte até vinte/Te afastas de mim/Pois já não vales nada/És página virada/Destacada do meu folhetim”.

Sobram reviravoltas no segundo ato, com trairagem, delações e rasteiras de todo tipo. Max está em apuros. É no segundo ato que a até então figurante Geni ganha relevância: “De tudo que é nego torto/Do mangue, do cais do porto/Ela já foi namorada/ O seu corpo é dos errantes/Dos cegos, dos retirantes/É de quem não tem mais nada”. E o refrão: “Joga pedra na Geni, joga bosta na Geni/Ela é feita pra apanhar/Ela é boa de cuspir/Ela dá pra qualquer um/Maldita Geni”.

A montagem da Companhia Bravo, ainda em cartaz em São Paulo, segue para turnê. Imperdível.

Fernando Bandini é professor de Literatura