31 de março de 2026
OPINIÃO

O voo da indústria: o impacto dos caças Gripen


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A história da aviação brasileira ganha, nestes dias, um capítulo que transcende a defesa de nossa soberania aérea e o controle do espaço sideral. O início da fabricação dos caças F-39 Gripen em solo nacional, fruto do programa de transferência de tecnologia com a sueca Saab, não é apenas um marco militar histórico, é um catalisador de inovação para a indústria paulista e brasileira, certamente com reflexos diretos em Jundiaí e região.

Para compreendermos o tamanho desta conquista estratégica, precisamos olhar para 2013, quando o Brasil selecionou o projeto Gripen NG. O critério fundamental para a escolha não foi apenas a superioridade técnica da aeronave, mas o compromisso real com a transferência de tecnologia. Diferente de compras anteriores, desta vez o Brasil não adquiriu apenas o "produto final", mas o "saber fazer". Engenheiros brasileiros foram à Suécia, aprenderam processos complexos e, hoje, essa inteligência já tem sido aplicada na linha de montagem em Gavião Peixoto (SP). É a materialização de um aprendizado que fica no país.

Celebrar a fabricação nacional do Gripen (fruto da parceria entre a brasileira Embraer e a sueca Saab), é reconhecer que o Brasil ingressa em um seleto grupo de nações capazes de produzir tecnologia supersônica de ponta. Para a indústria de transformação, isso significa o desenvolvimento de uma cadeia de suprimentos de altíssimo valor agregado. Estamos falando de aeroestruturas complexas, sistemas eletrônicos de última geração e softwares de alta confiabilidade.

O impacto imediato é a qualificação de mão de obra de elite. Mais de 350 profissionais brasileiros foram treinados em tecnologias que antes eram inacessíveis em território nacional. Esse conhecimento transborda para outros setores vitais: a precisão cirúrgica exigida na aviação acaba elevando os padrões de qualidade em toda a metalmecânica, na eletrônica fina e na gestão de projetos industriais complexos. É um efeito cascata que moderniza o parque fabril.

Os desdobramentos para a economia são profundos e duradouros. Primeiramente, há o fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID), que representa cerca de 4% do PIB brasileiro. Quando fabricamos aqui, retemos impostos, geramos empregos qualificados e reduzimos a dependência de importações críticas. Além disso, o Gripen funciona como uma "âncora tecnológica". Empresas satélites, muitas delas localizadas no interior de São Paulo, beneficiam-se dessa demanda constante por componentes de precisão. O ecossistema industrial de Jundiaí, com sua vocação logística e tecnológica, está posicionado para colher os frutos dessa sofisticação produtiva.

O Gripen é o símbolo de uma indústria que não se contenta em ser apenas montadora, mas que deseja ser criadora. Ao dominarmos a fabricação desses caças, mostramos ao mundo que a indústria nacional está pronta para os desafios da Indústria 4.0. É um voo alto, seguro e que aponta para um futuro de desenvolvimento sustentado pela ciência e pela tecnologia de ponta, garantindo prosperidade para as próximas gerações.

Francesconi Júnior é 1º vice-presidente do Ciesp e diretor da Fiesp