29 de março de 2026
OPINIÃO

O erro da polarização na política nacional


| Tempo de leitura: 3 min

A política democrática sempre envolveu divergências. Ideias diferentes sobre economia, justiça social, papel do Estado ou prioridades nacionais fazem parte do funcionamento normal de uma sociedade plural. O problema surge quando a divergência deixa de ser debate e se transforma em polarização extrema. Nesse cenário, a política deixa de ser um espaço de reflexão sobre o interesse coletivo e passa a funcionar como um campo de batalha entre dois lados irreconciliáveis. Esse fenômeno tem marcado a política nacional nos últimos anos e acaba contaminando, inevitavelmente, as eleições presidenciais.

A polarização ocorre quando o espectro político se comprime em dois polos antagonistas e excludentes. Desaparecem as zonas intermediárias de diálogo, negociação e compromisso. Cada lado passa a enxergar o outro não como adversário legítimo, mas como uma ameaça ao país. Em vez de discutir soluções para problemas concretos, a política passa a ser dominada por narrativas emocionais e identitárias.

Uma das consequências mais visíveis desse processo é a transformação do eleitor em torcedor. Na política polarizada, o cidadão deixa de se comportar como alguém que avalia propostas e projetos de governo e passa a agir como um torcedor de futebol que defende seu time independentemente do desempenho em campo.

A diferença entre o torcedor e o eleitor é fundamental. O torcedor vive da emoção. Seu vínculo com o time é afetivo e incondicional. Mesmo quando o time joga mal, ele continua a defendê-lo, pois sua identidade está ligada àquela camisa. No futebol isso é natural e até saudável. O esporte vive dessa paixão.

Na política, porém, a lógica precisa ser diferente. O eleitor não pode agir como torcedor. O que está em jogo em uma eleição não é uma disputa esportiva nem uma rivalidade simbólica. Está em jogo o futuro do país, a qualidade das políticas públicas, o destino da economia, da educação, da saúde e da segurança. Em última análise, está em jogo o futuro do próprio eleitor e de seus filhos.

Por isso, o voto deveria ser um ato essencialmente racional. O eleitor precisa avaliar programas, examinar propostas, observar a trajetória dos candidatos e considerar quais políticas podem produzir melhores resultados para a sociedade. Quando a política se transforma em torcida organizada, essa dimensão racional desaparece. O debate se reduz a slogans, acusações e demonstrações de lealdade ao próprio campo político.

Essa dinâmica se torna ainda mais problemática nas eleições presidenciais. A escolha do presidente deveria ser o momento máximo de reflexão coletiva sobre o projeto de país que se deseja construir. No entanto, em um ambiente polarizado, a eleição tende a se transformar em um plebiscito emocional. Muitas pessoas votam não pelo candidato que consideram mais preparado, mas simplesmente para impedir a vitória do candidato do outro lado.

O resultado é o empobrecimento do debate público. Questões complexas são substituídas por narrativas simplificadoras, e propostas concretas perdem espaço para ataques pessoais ou disputas simbólicas. A política deixa de ser uma arena de soluções e passa a ser uma arena de antagonismos.

Além disso, a polarização tende a fragilizar as próprias instituições democráticas. Quando a política se transforma em uma disputa existencial entre dois campos, cresce a tentação de deslegitimar qualquer instituição que pareça favorecer o adversário. A confiança nas instituições diminui e o sistema democrático se torna mais instável.

Superar esse quadro não significa eliminar divergências — algo impossível e até indesejável em uma democracia. O pluralismo é parte essencial da vida política. O desafio é evitar que as divergências se transformem em hostilidade permanente e que a política seja reduzida a uma disputa de torcidas.

A democracia precisa de cidadãos que ajam como eleitores, não como torcedores. O torcedor vibra, sofre e se emociona com seu time. O eleitor, por sua vez, precisa pensar, comparar e escolher com responsabilidade. Enquanto a política continuar sendo tratada como um campeonato entre dois lados irreconciliáveis, o debate público permanecerá empobrecido e a democracia continuará refém da polarização.

Recuperar a racionalidade do voto é, portanto, um passo essencial para fortalecer a vida democrática. O destino de uma nação não pode ser decidido pela lógica da torcida. Ele exige reflexão, responsabilidade e compromisso com o futuro comum.

Miguel Haddad é ex-prefeito de Jundiaí