29 de março de 2026
OPINIÃO

A verdadeira religião


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Religar-se com o Criador é algo ínsito à natureza humana. O ateísmo convicto, se não implicar em comportamento nocivo à convivência, guarda uma certa reverência à religião.

Mas o que é, na verdade, a religião?

Mais do que ritos e fórmulas, dogmas e verdades, piruetas corporais, é tentar uma integração à plenitude divina.

Um pensador polêmico, estigmatizado pelos seus – era judeu – e pelos cristãos, deixou em seu “Tratado” uma receita bem coerente para quem procura seguir os preceitos da busca de uma real integração com o Criador.

O primeiro passo é reconhecer que existe um Deus, isto é, um Ser supremo, sumamente justo e misericordioso, modelo da verdadeira vida; com efeito, quem não sabe ou não acredita que Ele exista, não lhe pode obedecer ou reconhecê-lo como juiz.

Existe um único Deus: ninguém pode pôr em dúvida que também isso seja absolutamente necessário para que Deus suscite a máxima devoção, admiração e amor, dado que estes sentimentos surgem apenas da superioridade de um sobre todos os outros.

Deus está em toda parte, ou seja, nada Lhe é oculto: se se acreditasse que para Ele havia coisas escondidas ou se se ignorasse que Ele vê tudo, então duvidar-se-ia ou ignorar-se-ia a equidade da justiça com que rege todas as coisas.

Deus tem, sobre todas as coisas, o direito e o domínio total, e tudo quanto faz é por Seu beneplácito absoluto e em virtude de um dom singular, e não por coação de uma lei qualquer: com efeito, todos estão obrigados a obedecer-Lhe em tudo e Ele não obedece a ninguém.

O culto e a obediência a Deus consistem unicamente na justiça e na caridade, isto é, no amor para com o próximo.

Só aqueles que obedecem a Deus, seguindo essa norma de vida, obtêm a salvação, ao passo que os outros, os que vivem sob o império das paixões, estão perdidos. Se os homens não acreditassem firmemente nisso, não haveria nenhuma razão para preferirem obedecer antes a Deus do que às paixões.

Finalmente, Deus perdoa os pecados aos que se arrependem. De fato, como não há ninguém que não peque, se não se admitisse que era assim, todos desesperariam da salvação e não teriam nenhum motivo para acreditar na misericórdia divina. Mas aquele que acredita firmemente que Deus, pela misericórdia e graça com que rege todas as coisas, perdoa os pecados dos homens, e que por esse motivo se inflama ainda mais de amor para com Deus, esse conhece verdadeiramente Cristo segundo o Espírito e Cristo está nele.

Na verdade, a suposição de Espinosa era a de que apenas alguém que cresse na existência de um Deus justo e misericordioso, que sabe de todas as coisas e que tem poder sobre todas as coisas, irá  – de bom grado e sistematicamente – obedecer ao preceito divino de amar a Deus. Mais ainda, se empenharia em imitar essa representação de Deus em sua própria conduta e trataria os outros com justiça e caridade.

No mais, instigante o pensamento de Baruch Espinosa: “A fé concede a cada um a máxima liberdade de filosofar, de tal modo que se pode, sem cometer nenhum crime, pensar o que se quiser sobre todas as coisas. As únicas pessoas que ela condena como heréticas e cismáticas são as que ensinam opiniões que incitem à insubmissão, ao ódio, às dissensões e à cólera; em contrapartida, só considera fiéis aqueles que, tanto quanto a sua razão e as suas capacidades lhes permitem, espalham a justiça e a caridade”.

Embora batam no peito e se persignem, não são verdadeiramente religiosos os que não se comportam, em relação aos semelhantes, com justiça e com caridade.

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo