28 de março de 2026
FRAN GALVÃO

O que um top de academia revela sobre nós, e não sobre quem veste

Por Fran Galvão | Consultora de Imagem e Estilo
| Tempo de leitura: 4 min
Divulgação
O que um top de academia revela sobre nós, e não sobre quem veste

Nesta semana, uma situação ocorrida em uma academia de São José dos Campos ganhou grande repercussão nas redes sociais - e não foi por acaso. Uma mulher relatou ter sido abordada pela equipe do local e orientada a trocar ou cobrir o top que usava durante o treino, para “segurança dela”, pois no local havia “homens casados”.

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A peça, da marca Track & Field, não apresentava transparência, excesso de decote ou qualquer característica considerada, à primeira vista, inadequada para o ambiente fitness. Ainda assim, foi alvo de questionamento.

O episódio rapidamente gerou indignação, debates e diferentes versões. Enquanto a academia chegou a se posicionar publicamente, pedindo desculpas, a própria cliente afirmou que a situação não havia sido resolvida da forma como foi divulgada. Mas, mais do que discutir quem está certo ou errado, essa situação nos convida a uma reflexão mais profunda, especialmente sob o olhar da consultoria de imagem.

Talvez o ponto mais importante aqui seja entender que a comunicação da imagem não está apenas na roupa em si, mas no olhar de quem vê. A mesma peça - um top esportivo básico - pode ser interpretada de maneiras completamente diferentes dependendo do repertório, dos valores e das crenças de quem observa – quem já participou de alguma palestra minha vai se lembrar que sempre trago essa questão, o impacto dos nossos vieses inconscientes em nossos julgamentos.

Na teoria da imagem pessoal, falamos muito sobre intenção versus percepção. A intenção daquela mulher era clara: vestir-se adequadamente para um treino, com conforto, sustentação e funcionalidade. A percepção, no entanto, foi outra para quem a abordou. E é nesse desencontro que nascem as polêmicas.

Existe uma linha tênue - e muitas vezes invisível - entre o que é considerado apropriado e o que é visto como inadequado. E essa linha não é universal. Ela é cultural, social e, principalmente, subjetiva.
Mas quando essa subjetividade recai de forma mais intensa sobre o corpo feminino, precisamos parar e observar com mais atenção.

Historicamente, o corpo da mulher sempre foi mais vigiado, mais regulado e mais interpretado. Mesmo em ambientes onde a funcionalidade deveria prevalecer - como uma academia - ainda vemos julgamentos baseados em códigos que nem sempre são explícitos, mas que estão profundamente enraizados.

E é aqui que entra um ponto importante da consultoria de imagem: não se trata apenas de “o que vestir”, mas de entender o contexto, os códigos daquele ambiente e, principalmente, os riscos de interpretação.

Isso não significa limitar ou censurar escolhas. Muito pelo contrário. Significa ampliar a consciência.
Porque até mesmo o “básico” ou o “neutro” comunicam algo.

Um top neutro, uma legging preta, um conjunto aparentemente simples - tudo isso transmite mensagens. Pode comunicar praticidade, autoconfiança, liberdade, mas também pode ser interpretado, por alguns, através de filtros mais conservadores ou até enviesados.
E então surge a pergunta inevitável: devemos nos adaptar a todos os olhares?

A resposta não é simples.

Como consultora, acredito que a imagem é uma ferramenta estratégica. E estratégia envolve escolhas conscientes. Saber que você pode ser interpretada não significa que você deve abrir mão de quem você é - mas te dá poder para decidir quando, como e onde sustentar essa escolha.
Ao mesmo tempo, também é essencial trazer responsabilidade para o outro lado: o olhar.

Não podemos normalizar a vigilância constante sobre o corpo feminino como se fosse apenas uma questão de “adequação”. Muitas vezes, o que está em jogo não é a roupa - é o julgamento.
Esse episódio pra mim, não é apenas sobre um top.

É sobre como ainda lemos o corpo da mulher antes de ouvir sua intenção. É sobre como ambientes que deveriam ser seguros e acolhedores podem, ainda que de forma sutil, reforçar padrões de controle. E é sobre como a imagem, apesar de ser uma ferramenta individual, ainda é atravessada por construções coletivas.

]Talvez o maior aprendizado aqui seja o equilíbrio entre entender que a sua imagem comunica e não permitir que ela seja constantemente policiada. Entre ter consciência e não viver em função da aprovação. E como todo equilíbrio, é difícil de se alcançar.

Por fim, é preciso ter em mente que a imagem não deveria ser um lugar de restrição e sim de expressão, de personalidade e de respeito.