Manuel Maria Barbosa du Bocage foi um extraordinário poeta da língua portuguesa. Nascido em Setúbal, no litoral português, no ano de 1765, teve seu talento reconhecido em vida como grande autor de sonetos (e, depois de morto, aclamado como um dos maiores na arte de compor esses poemas de 14 versos).Sua vida ficou marcada pela irreverência e boemia. Bebia muito e arrumava confusão. Arruaceiro desde sempre, foi preso mais de uma vez por brigas em botecos fuleiros. Poeta satírico, liberal na política e defensor dos princípios da Revolução Francesa, também foi detido por suas críticas à monarquia portuguesa e a seus ministros de Estado. Ingressou na Marinha e viajou o mundo. Percorreu o litoral da América do Sul, da África e da Ásia. Esteve no Brasil, onde aportou em Salvador e no Rio de Janeiro.
De amores tão intensos quanto fugazes, regressou a Portugal para o casamento do irmão. Mas... Apaixonou-se pela cunhada, a quem dedicou versos. Para não magoar o irmão, com quem se dava bem e a quem estimava, voltou para a Marinha e viajou novamente, a fim de distanciar-se do furdunço que se avizinhava. Talentoso, foi convidado a integrar a Nova Arcádia, academia de literatos portugueses. Chegou a frequentá-la, mas logo desentendeu-se com seus pares, a quem dedicou poemas nada lisonjeiros. Acabou expulso da entidade. Finaliza um desses poemas zombeteiros anunciando que iria urinar sobre a estátua dos confrades.
Como se percebe nessas notas ligeiras, sua vida foi pouco edificante para a moralidade da época. Porém, o intempestivo Bocage arrependeu-se. Nos últimos cinco anos de sua vida, voltou-se para o catolicismo – a religião de sua mãe, de quem herdou o sobrenome Bocage – o poeta escreveu versos em que renegava a vida passada. “Já Bocage não sou!... À cova escura /Meu estro vai parar desfeito em vento.../Eu aos céus ultrajei! O meu tormento /Leve me torne sempre a terra dura”. E segue a toada do arrependimento, pedindo para não o tomarem como exemplo: “Conheço agora já quão vã figura/Em prosa e verso fez meu louco intento; (...) Eu me arrependo; a língua quase fria brade em alto pregão à mocidade (...) A santidade manchei. Oh, se me creste gente ímpia,/Rasga meus versos, crê na eternidade!”. Em outro soneto da mesma linhagem, anuncia: “Meu ser evaporei na lida insana/Do tropel de paixões que me arrastava;/ Ah, cego eu cria, mísero eu sonhava/ Em mim quase imortal a essência humana”. Numa explicação miúda, o sujeito diz que quando era jovem e não pensava na morte, foi levado pelas paixonites, as quais dissiparam sua vida. E diz mais:
“Prazeres, sócios meus e meus tiranos (...) No abismo vos sumiu dos desenganos”. Dominado pelos sempre companheiros prazeres mundanos, entrou em muita roubada, caiu no buraco diversas vezes. E termina rogando aos céus: “Deus, oh Deus!... Quando a morte à luz me roube/ Ganhe um momento o que perderam anos,/Saiba morrer o que viver não soube.”Tadinho do moço. Bocage morreu aos 40 anos, em 1805.
Fernando Bandini é professor de Literatura