O Brasil encontra-se diante de um momento decisivo em sua trajetória demográfica e econômica, uma etapa que não permite mais qualquer tipo de hesitação por parte de seus formuladores de políticas e lideranças empresariais. O recente relatório da consultoria McKinsey é categórico ao afirmar que temos uma janela de pouco mais de uma década para elevar nossa produtividade de forma disruptiva, antes que o envelhecimento acelerado da população se torne um freio estrutural definitivo ao crescimento sustentável do país.
Para nós, do Ciesp, o diagnóstico é claro e urgente: a indústria não é apenas uma parte da solução, ela é o motor central dessa transformação necessária que o momento histórico exige. O estudo identifica setores estratégicos onde o país detém vantagens competitivas latentes ou potencial de liderança global, como a manufatura de próxima geração impulsionada por inteligência artificial e automação. Este setor surge como o pilar fundamental para revitalizar nossas fábricas, permitindo que o Brasil deixe de ser apenas um exportador de commodities para se tornar um hub tecnológico de alto nível. Não se trata apenas de produzir em maior volume, mas de produzir com maior valor agregado e eficiência técnica superior. Somam-se a isso as imensas oportunidades na transição energética, onde o Brasil já é protagonista natural com energias renováveis, e a exploração de combustíveis fósseis, que seguirão fundamentais para o equilíbrio da economia global por um período de transição ainda longo.
Um ponto de atenção especial reside nos minerais críticos e nas terras raras. Embora o Brasil possua algumas das maiores reservas mundiais desses elementos essenciais para a alta tecnologia e a economia verde, nossa capacidade de exploração e beneficiamento ainda está muito aquém do potencial real. É preciso transpor a barreira da extração bruta e investir em tecnologia para que esses recursos impulsionem indústrias locais de semicondutores, baterias e turbinas.
A integração entre a tradicional pujança da nossa agricultura e alimentos com serviços digitais de ponta e centros de dados de alta capacidade completa o ecossistema de uma economia que se pretende moderna, resiliente e inserida nas cadeias globais de valor. Contudo, o Brasil precisa se transformar em um destino irresistível para o capital global por meio de ações concretas e visão estratégica. Isso exige uma diversificação inteligente de nossos parceiros comerciais e o avanço firme com marcos regulatórios que tragam segurança jurídica ao investidor.
Um ponto estratégico destacado pela McKinsey também é a integração com a América Latina, pauta que o Ciesp defende e pratica ativamente. Exemplo prático deste compromisso foi a realização, nesta semana, do Fórum de Investimentos Brasil-Peru em nossa sede. Eventos desta magnitude são fundamentais para estreitar laços comerciais, harmonizar normas e criar cadeias de suprimentos regionais robustas, permitindo que o continente ganhe escala e relevância frente aos blocos mundiais.
O bônus demográfico brasileiro está chegando ao fim e, se não investirmos agora na produtividade da mão de obra e no reequipamento tecnológico de nosso parque fabril, correremos o risco de envelhecer antes de enriquecer. O momento de agir é agora, unindo a profundidade estratégica à prática de integração regional e desburocratização, pois o desenvolvimento sustentável e a prosperidade do país passam, obrigatoriamente, por uma indústria forte, tecnológica e altamente produtiva.
FRANCESCONI JÚNIOR é 1º vice-presidente do Ciesp e diretor da Fiesp*