15 de março de 2026
OPINIÃO

Proteção a nossas meninas


| Tempo de leitura: 3 min

Na última terça-feira, eu estava sentada num lobby de hotel, no Rio de Janeiro, aguardando minha carona para o aeroporto. Ao meu lado, uma menina inglesa, menos de 23 anos - idade da minha filha - chorava copiosamente, sozinha. Perguntei se ela precisava de ajuda e ela me disse que seu celular não conseguia ligar para a companhia aérea, a fim de adiantar seu voo.

Prontamente, liguei para a empresa no Galeão, que não tinha atendimento em inglês, e fomos direcionados a SP. Como tinha compromisso, chamei o concierge do hotel e pedi para que ele providenciasse esse atendimento. Logo, ela volta e me diz que não deu certo, porque adiantar o voo custaria muito caro. Pedi, então, que ela se mantivesse em segurança no Rio até a hora de ir para o aeroporto.  

Eu não questionei o motivo de ela estar ali sozinha, passando por aquele perrengue. Provavelmente, a velha história conhecida. Um rapaz com quem viajou e a deixou sozinha ou então um brasileiro que sumiu - num romance malfadado. Fiquei muito comovida porque imaginei minha filha numa situação desta, longe da família, em um país estrangeiro, numa cidade perigosa.

A gente sabe muito bem que os filhos mal escutam as recomendações dos pais. E, para piorar, tinha visto a reportagem da garota de 17 anos que sofreu um estupro coletivo no Rio, o que me causou náuseas e um inconformismo infindo.

Como disse na outra semana, que tipo de homens estamos criando neste país? Estes cidadãos não demonstraram nenhum arrependimento. Como se a menina fosse apenas um objeto para ser surrado e espancado.

Mas, voltando ao caso da inglesinha, me perguntei se estamos mesmo criando raízes profundas de auto-respeito em nossas meninas. Mais do que auto-respeito, será que elas sabem se safar de situações que podem colocar suas vidas em risco? Uma profunda consciência de quem são e de como estar em sociedade pode ser perigoso?

Quando falamos que estes jovens estão sofrendo com doenças mentais, será que a gente para pra pensar que o mundo é hostil, hoje, mais do que nunca? Que estão todos acuados em casa porque não há segurança para andar nas ruas? Que o simples existir pode colocar suas vidas em risco? Como vemos diariamente em Jundiaí, onde meninas são assassinadas por não corresponderem a um amor desvairado?

É triste pensar, mas educar meninas hoje em dia é dar ferramentas para que elas se defendam. Criar uma proteção emocional para que não caiam em contos do vigário.  Estar sempre disponível para que elas saibam que os pais são seus protetores e amigos. Quiçá ensinar artes marciais e comprar um spray de pimenta. E, pior, avaliar parentes e amigos que frequentam nossas casas, pois em 90% das vezes o abusador sexual é um parente próximo.

Não está fácil não. Por isso, tantos jovens abdicam da maternidade hoje em dia. Porque a maior guerra civil que o Brasil enfrenta é o feminicídio. Respirar como mulher e viver a plenitude da nossa feminilidade, com amor, compaixão, desejo de criar uma família, trabalhar e ser feliz pode nos custar a vida.

Sonho com a Jundiaí de antes. Eu e minhas amigas, 14 anos, nos encontrando nas casas de nossas famílias, todos os finais de semana, para brincadeiras dançantes. Quando uma namorava, era com alguém de nosso convívio, em profundo respeito de todos os demais por essa nova relação. Algumas, estão casadas até hoje com nossos amigos. Não havia violências nas ruas, podíamos voltar a pé do Clube ou do Grêmio, poucas drogas rolavam e, mesmo assim, num mundo bem underground. Era uma outra vida. A gente vivia  despreocupada. E, nesta despreocupação, fomos estudando e traçando nossas carreiras e estruturando novas famílias.

O que estão fazendo com nossas meninas, agora, é desumano. Estamos arrancando sonhos e esperanças de jovens maravilhosas, radicalizando conceitos que não nos cabem mais.  Somos todos humanos e precisamos uns dos outros.

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ