15 de março de 2026
OPINIÃO

Jundiaí tem “Veredas Urbanas”?


| Tempo de leitura: 3 min

Como jundiaiense nato, de coração e devoção, torço para que minha cidade seja uma daquelas que leve a sério o maior desafio já enfrentado pela humanidade: as emergências climáticas.

É o tempo do protagonismo cidadão, pois as esferas federais perdem-se em superficialidades eleiçoeiras e, fora de Brasília, parecem não se interessar pelo que se passa Brasil afora.

Aplaudo iniciativas como “Veredas Urbanas”, levada a efeito em Ribeirão Preto, com a proposta de reconexão da cidade com a arborização urbana. É alguma coisa instigante e que deveria ser replicada em todos os outros 5.570 municípios tupiniquins.

Ali, na poderosa capital do agronegócio pátrio, foi lançado o livro do projeto “Florestar”, que contempla seis praças da cidade e convida os munícipes a redescobrirem as suas árvores. O projeto foi iniciativa da Professora Clarice Sumi, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e o livro foi publicado pelo SESC-SP. É um convite ao reencontro com a maior amiga da vida humana, que é a árvore. Estabelece um diálogo entre ciência, memória e cotidiano urbano.

As praças reúnem tudo isso. A proposta convida o leitor a revisitar as praças centrais da cidade, ilhas de resistência dentro de um município castigado pelo calor excessivo, pelo concreto e por uma urbanização que por décadas ignorou o poder do verde para refrescar o corpo e apaziguar o espírito.

Jundiaí perdeu muita vegetação nas últimas décadas. O seu centro ficou “desarvorado”, sem trocadilhos. Teria sido viável manter um corredor verde que teria início nas proximidades da necrópole. A residência de Hermes Traldi possuía muitas árvores. O Mosteiro de São Bento também. Mas tudo serviu à especulação, à ocupação de concreto, ferro e aço. E a Praça Governador Pedro de Toledo já não possui verde. Nem o entorno da Catedral, que já teve muitas árvores na década de cinquenta. Havia até “bichos-preguiça” nas árvores junto ao coreto da Matriz.

Como seria importante que Prefeitura e Sociedade civil se encarregassem de resgatar o verde em Jundiaí. Não só para ampliar a área expropriada junto às vertentes da Serra do Japi, esse patrimônio que aos poucos vai sendo alvo de ocupação insensata. Mas também no centro urbano, tão desprovido de cobertura vegetal.

É incrível que uma cidade que tem, por exemplo, uma “Rua das Pitangueiras”, não possa mostrar a uma criança que lá resida, o que é uma pitangueira. Ou que um bairro chamado “Horto Florestal” já não seja o oásis que um dia foi, quando a extinta Companhia Paulista de Estradas de Ferro mantinha um horto para reflorestamento e uso da madeira para alimentar as caldeiras de suas “marias-fumaças”.

Como bem preleciona o maior físico brasileiro, cientista mundialmente prestigiado, Ministro José Goldemberg, somos detentores da mais eficiente tecnologia para reequilibrar o clima: chama-se árvore. Se isso entrasse na consciência empedernida do negacionista, que se recusa a enxergar a realidade, mas será – inevitavelmente – vítima dela, haveria um verdadeiro festival de plantios. Em todos os espaços, para reduzir a temperatura, permitir que a água se infiltre na terra para reabastecer os lençois freáticos. E a população seria premiada com mais verde, menos calor, mais saúde física e mental.

A esperança é que as novas gerações, que serão vítimas durante décadas da inclemência de um clima que é consequência de nossa própria insanidade, acorde e exija do Poder Público e da iniciativa privada que a arborização urbana seja uma política pública séria e consequente.

Enquanto isso, padeçamos com o calor excessivo, que causa mais mortes do que as ondas de frio.

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo