07 de março de 2026
OPINIÃO

Não é o treino que destrói o seu corpo


| Tempo de leitura: 3 min

Durante muito tempo criou-se a ideia de que o exercício físico poderia ser agressivo ao nosso corpo. Muitas pessoas dizem frases como ‘não quero desgastar minhas articulações’, ‘treino demais faz mal’ ou ‘prefiro me poupar’. Mas a ciência tem mostrado algo muito claro e, ao mesmo tempo, inquietante: o verdadeiro inimigo da saúde não é o movimento. É a falta dele!

O corpo humano foi projetado para se movimentar. Cada articulação, cada músculo, cada fáscia, cada sistema do nosso organismo depende do movimento para funcionar bem. Quando nos movimentamos estimulamos a circulação sanguínea, melhoramos a oxigenação dos tecidos, fortalecemos músculos e ossos, ativamos o sistema nervoso e mantemos nossas articulações nutridas.

Quando paramos, o oposto acontece. Passar muitas horas sentado ou deitado tem efeitos profundos no organismo. O metabolismo desacelera, a circulação diminui, os músculos perdem força, a mobilidade articular reduz e a coluna passa a sofrer com compressões constantes. Aos poucos surgem dores lombares, rigidez cervical, fraqueza muscular e alterações posturais.

Hoje já sabemos que o sedentarismo é um dos principais fatores de risco para diversas doenças modernas. Estudos mostram associação direta com doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, obesidade, depressão e até declínio cognitivo.

Mas existe algo ainda mais interessante. Nosso corpo possui mecanismos naturais de regeneração que são ativados justamente pelo movimento.

Durante o exercício físico os músculos liberam substâncias chamadas miocinas, verdadeiras moléculas mensageiras que ajudam a reduzir inflamações, melhorar o metabolismo e proteger diversos órgãos. O movimento também estimula a produção de BDNF, uma proteína essencial para a saúde do cérebro, responsável por favorecer a memória, o aprendizado e a neuroplasticidade.

Em outras palavras, mover o corpo não apenas fortalece os músculos, mas literalmente, conversa com o resto do organismo, enviando sinais de saúde.

Outro aspecto fundamental é a saúde das articulações e das fáscias, um sistema que envolve e conecta todo o corpo. Quando nos movimentamos geramos estímulos mecânicos que hidratam esses tecidos e mantêm sua elasticidade. Sem movimento, essas estruturas tornam-se rígidas, menos funcionais e mais propensas a dor.

Muitas pessoas acreditam que as articulações se desgastam com o uso. Na verdade, acontece o contrário. Articulações precisam de movimento para se nutrir. O líquido sinovial, responsável pela lubrificação das articulações, circula justamente quando nos movemos.

É claro que o excesso, sem preparo, pode gerar sobrecargas. Mas isso não significa que o problema seja o exercício. O problema é o desequilíbrio entre carga, recuperação e consciência corporal.

Treinar de forma inteligente fortalece o corpo. Permanecer parado enfraquece. Talvez por isso uma das frases mais importantes da medicina moderna seja esta: o sedentarismo é o novo tabagismo. Passar muitas horas sentado tornou-se um comportamento comum na vida contemporânea e seus efeitos acumulam-se ao longo dos anos de forma silenciosa.

O sofá parece confortável no curto prazo, mas pode cobrar um preço alto no futuro. O movimento, por outro lado, é uma das ferramentas mais poderosas e acessíveis que temos para cuidar da saúde. Caminhar, alongar, fortalecer músculos, respirar melhor, mobilizar articulações e despertar consciência corporal são gestos simples que ajudam a preservar a vitalidade do corpo ao longo da vida.

Não precisamos buscar performances extremas. Precisamos apenas lembrar de algo essencial: o nosso corpo não foi feito para a imobilidade, mas sim para  o movimento.

Portanto, da próxima vez que alguém disser que o treino pode destruir o corpo, talvez valha a pena refletir. Na maioria das vezes não é o exercício que nos adoece. É o sofá. Muita saúde a todos.

Liciana Rossi é especialista em coluna e treinamento corretivo, pioneira do método ELDOA no Brasil