04 de março de 2026
OPINIÃO

Comportamento humano e redes sociais


| Tempo de leitura: 2 min

“Entrar na internet” era um termo comum por volta dos anos 2000, quando precisávamos nos deslocar até uma “lan house” para ter acesso a um computador e então verificar e-mails ou acessar qualquer uma das ferramentas da internet. Uma década foi o tempo necessário para o salto tecnológico que mudou o mundo, assim como a forma como nos relacionamos em casa, com os amigos e profissionalmente.
 
A banda larga residencial trouxe planos de internet que se popularizaram rapidamente e eliminaram a necessidade de ir a um local pago para navegar ou jogar online. Em 2008, os smartphones e o Wi-Fi se espalharam exponencialmente permitindo a conexão a partir de qualquer lugar. Os computadores e videogames tornaram-se mais acessíveis financeiramente e ganharam um lugar de honra nos lares. Já as antigas redes sociais e aplicativos como Orkut ou MSN, hoje, foram substituídos por apps que funcionam direto no celular.

E as pessoas? O que aconteceu com a sociedade diante de tanta conectividade e informação?  Podemos afirmar que passamos por uma verdadeira reengenharia comportamental, com mudanças radicais nas atitudes, hábitos e dinâmicas de interação.

A massificação das mídias sociais alterou o uso e as ferramentas de comunicação mexendo com a cognição e saúde mental de bilhões de pessoas que passaram a ser definidas como usuários, em um ecossistema focado na geração e compartilhamento incessante de conteúdo que trouxe a reboque o “fast”. Tudo é pra já. Como consequência, temos a busca por prazer rápido e imediato. Plataformas digitais são desenhadas para promover a liberação de dopamina e ocitocina por meio de notificações e curtidas, criando um ciclo de recompensa semelhante ao da dependência química.

O excesso de telas afeta as funções cognitivas, tornando penoso ignorar notificações ou manter a atenção em conversas complexas. Há uma tendência crescente à frustração fácil e à necessidade de trocar rapidamente de assunto. A comparação humana tornou-se global e constante. Usuários expõem "vidas perfeitas", gerando sentimentos de inadequação e baixa autoestima em quem consome passivamente esses recortes da realidade. No Brasil, quase 37% da população passa mais de três horas diárias nas redes sociais, índice que sobe para 43,5% entre pessoas com diagnóstico de ansiedade.

As relações de consumo ganharam novo formato. Jornalistas e usuários capturam e publicam histórias instantaneamente, mudando a dinâmica da opinião pública. Já são 64% o número total de brasileiros que preferem o atendimento digital. Há uma integração cada vez maior entre o mundo físico e o virtual. A polarização e o controle tornou-se possível pela manipulação do comportamento por meio de dados fornecidos pelos próprios usuários sobre pensamentos e ações, alimentando bolhas informacionais e desinformação.

O olho no olho está perdendo para o olho na tela e as relações humanas estão esfriando.
E você? Como está diante desse novo mundo?

Rosângela Portela é jornalista, mentora em comunicação