03 de março de 2026
OPINIÃO

Brasil e a corrida das terras raras


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O Brasil vive hoje um momento de rara convergência entre potencial geológico e oportunidade econômica. Os dados que circulam com frequência na imprensa confirmam que sete projetos de mineração de terras raras estão em fase pré-operacional no país, com investimentos que devem somar R$ 13,2 bilhões nos próximos anos. Este não é apenas um dado estatístico isolado ou uma curiosidade setorial, mas sim um chamado urgente para a ação que interessa diretamente ao setor produtivo paulista e brasileiro. O Brasil entrou definitivamente no radar das grandes potências globais em busca de segurança no suprimento de materiais estratégicos para a transição energética, a alta tecnologia e a defesa nacional.

Para compreendermos a magnitude desse tema, precisamos olhar para os números com clareza. O Serviço Geológico do Brasil e estudos do US Geological Survey indicam que possuímos cerca de 21 milhões de toneladas de reservas. Isso representa aproximadamente 19% do total mundial, colocando-nos como a segunda maior reserva do planeta, atrás apenas da China. No entanto, o contraste é gritante: enquanto os chineses dominam 69% da produção global e 91% do refino, a participação brasileira ainda é inferior a 1%. Reduzir essa dependência do refino chinês é vital para a nossa soberania industrial. Para o fabricante brasileiro, isso significa garantir o fornecimento de insumos críticos sem ficar à mercê de tensões geopolíticas ou flutuações de preços impostas por um único fornecedor externo, permitindo um planejamento de longo prazo muito mais robusto, seguro e competitivo.

A importância desses 17 metais para a indústria é absoluta. Sem elementos como o neodímio ou o praseodímio, não existem os superímãs que movem os motores de carros elétricos ou as turbinas eólicas de última geração. O lantânio é vital no refino de petróleo e o samário é crítico em sensores de defesa. Dominar essa cadeia permite que o Brasil deixe de apenas exportar minério bruto para produzir internamente componentes de alto valor agregado, gerando empregos qualificados e renda.

Entretanto, esse caminho exige equilíbrio e compreensão das dificuldades do setor. Não podemos ignorar que a pesquisa mineral é uma atividade de alto risco, onde apenas duas em cada cem áreas sondadas se tornam projetos viáveis. Além disso, a atuação do Ministério Público é uma realidade que por vezes pode causar insegurança jurídica e interferências no licenciamento ambiental, mas precisamos entender que isso acontece porque as ferramentas de proteção ao meio ambiente e às comunidades nem sempre funcionam bem na ponta. Harmonizar essa fiscalização necessária com a agilidade e a segurança que o mercado global exige é, sem dúvida, o nosso maior desafio regulatório atual.

Temos uma janela estratégica curta, de 18 a 24 meses, para consolidar nossa posição e atrair acordos de offtake. Esse modelo de contrato é fundamental para quem está investindo, pois garante a compra antecipada de parte da produção futura por um preço e prazo determinados, oferecendo a segurança financeira e a previsibilidade de receita necessárias para tirar projetos de tamanha complexidade técnica do papel. Se perdermos esse prazo e não garantirmos esses compromissos agora, as infraestruturas de refino e os canais de escoamento serão estabelecidos em outras nações concorrentes. O Brasil não pode permanecer apenas como um espectador da nova economia global. O Ciesp acredita que, com segurança jurídica, tecnologia de ponta e união, transformaremos essas notícias em prosperidade real e duradoura para a indústria e para todo o povo brasileiro.

FRANCESCONI JÚNIOR é 1º vice-presidente do Ciesp e diretor da Fiesp