01 de março de 2026
OPINIÃO

Brasilidades


| Tempo de leitura: 3 min

Eu sou destas pessoas que, mesmo com o sacerdócio do jornalismo, me alegro diariamente. Me alegro por estar viva, por ter saúde (mesmo quando ela falha comigo), por ter escolhido ter filhos, minha profissão e por ter nascido dos pais que me orientaram e me ensinaram a estudar sempre. Não sou ufanista, entretanto, acho que o Brasil é um país que não vai dar certo e andará sempre às margens.

Outro dia, conversando com um gestor público, fizemos uma conta. Quase metade do PIB (que é toda riqueza produzida por um país) se perde pelos meandros da corrupção. E não é só corrupção política, é a financeira, a administrativa, a de empresas, da lavagem de dinheiro, do tráfico de drogas e do crime organizado.

Fiquei imaginando quantas hospitais públicos poderiam ser equipados, quantas pesquisas financiadas, quantos professores poderiam ser bem pagos com esse dinheiro desviado. E sabe o que é pior? Os brasileiros ainda aplaudem esses ricaços do Instagram, sem se preocupar de onde vem o dinheiro deles. Veja o caso do Banco Master, até então, seu CEO era tratado como galã.  Ou então dos influencers dos jogos de azar, que propulsionam o vício dentro dos lares brasileiros.  Ou inúmeras outras pessoas - até mesmo funcionários públicos - que ostentam uma riqueza que não tem lastro. Ou seja, não são herdeiros nem trabalhadores. Estão ali só porque apoiam o desvio de recursos públicos ou os golpes financeiros privados.

Disto isto, a economia do país vai mal. A dívida pública só aumenta, a eficiência e competitividade caem, os juros estão altíssimos e a gente sobrevive. E sobrevive porque pagamos no privado a educação de qualidade e o plano de saúde, que não encontramos no sistema público.

Disto isto, fiquei pensando no que me faz ter tanto apego ao meu país. Eu escolhi viajar com passaporte brasileiro e sempre sou muito bem tratada onde chego. Eu gosto das cores do Brasil, do seu povo, e aí digo o povo mesmo, do interior, desta gente que te convida para um café com bolo, numa casa miserável, que exala amor. Desta gente que sobrevive e é solidária.

Gosto da arquitetura brasileira, do design, dos jardins de Burle Marx. Gosto do Rio de Janeiro, quando a gente só o vê lá de cima do céu. Admiro os produtores culturais, os designers de moda, mas admiro ainda mais nosso povo. Esse povo que, apesar de viver em metrópoles imundas, sem saneamento básico e habitação para todos, ainda canta.  E esse povo canta nossa música, a mais bonita de todo o mundo.

Nosso talento é cultural. Nossa vocação é cultural. É através da emanação de nossa alegria que nossos poetas urbanos são reconhecidos, nossa literatura floresce, nossas cores aparecem. Isso é o que o Brasil tem de melhor. Do talento que emana do seu povo. E isso, minha gente, político nenhum pode tirar.

A todos nós, resistência. A quem persegue a cultura, o ostracismo. A quem não sabe ler, a escola necessária. Aos políticos corruptos, prisão perpétua. Aos músicos e literatas, o sucesso. Aos professores e mestres, nossa gratidão. Aos que vencem o preconceito, nosso reconhecimento. Aos que combatem a corrupção, nosso muito obrigado. Aos que sonham com Justiça, nosso apoio mais profundo.

Um dia seremos um país de verdade.

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ